quarta-feira, 9 de março de 2016

​O espinhoso Terreno da Política

​O espinhoso Terreno da Política, texto de Fernando Becker.

Sempre tive relutância em falar de política . É um assunto que sempre achei massante , até porque a maioria das pessoas não consegue dialogar de forma racional e civilizada sobre o tema ; a grande maioria encara o assunto como se estivesse falando de futebol : "Eu sou torcedor da esquerda  !" ; "Eu sou torcedor da direita !" ; "Visto a camisa do PT !" ; "Visto a camisa do PSdB !" . E isso sem contar o fato de ser um terrenoaltamente decepcionante , onde os resultados práticos quase nunca acontecem , ficando sempre mascarados por trás de teorias mirabolantes . Desta forma , sempre preferi ficar em silêncio ou manter uma aura deneutralidade quando me vi em meio a discussões acaloradas ( e quase sempre completamente inúteis ) sobre o assunto .

Porém atualmente está cada vez mais difícil eu conseguir manter essamáscara de indiferença , pois o assunto é a bola da vez , está bombando por todos os lados e da pior forma possível : as pessoas estão absolutamente possessas e enfurecidas , tanto entre aquelas que atacam o governo , quanto entre aquelas que defendem o governo ; uma postura racional e ponderada , visando compreender e contornar os problemas , é algo que praticamente não existe . Assim sendo , pretendo agora colocar minhas sinceras opiniões sobre esse espinhoso assunto .

Começo por expor minha visão ideológica : não acredito em extremismos, nunca acreditei ; todo discurso inflamado e carregado de ódio irracional ( tanto da direita quanto da esquerda ) sempre me causou um medo profundo , pois essa é a matéria-prima das ditaduras e dos governos de exceção , onde a racionalidade e o olhar crítico sobre os fatos são absolutamente proibidos , só valendo as palavras de ordem do grupo político e social dominante . Para esses seres violentos e irracionais , o negócio é "matar" , "acabar" , "destruir" , "detonar" ; se perguntados sobre suas ideias políticas para contornar os problemas , a resposta é invariavelmente a mesma : "Temos que matar esses vagabundos que fazem política , dar um tiro na cabeça deles , detonar com tudo" . Sinto um terrível frio na espinha quando vejo esses patéticos seres ganhando as ruas e bradando seu ódio cego e desprovido de ideias .

A História provou que os extremismos políticos deram errado , tanto napolaridade de esquerda quanto na de direita . Os exemplos são fartos e contundentes . Vamos a eles , primeiro criticando a extrema esquerda : o dito "socialismo real" , que imperou na finada União Soviética e no leste europeu , e que ainda perdura em Cuba , China e Coréia do Norte , infelizmente foi ( e ainda é ) uma grande falácia . Até pode ter havido algum avanço social nesse modelo , principalmente no combate à fome , porém a coisa acabava esbarrando na falta de liberdade individual para a população ; as liberdades de expressão e de comportamentosimplesmente não existiam ( à ponto de pessoas que se declarassemcristãs ou homossexuais serem condenadas à morte ) , e todos deveriam apenas respeitar os ditames ( e os limites ! ) impostos pelo Estado . O maior símbolo desse período foi o malfadado Muro de Berlim .

Agora vejamos o lado da extrema direita : o neoliberalismo foi uma dasmaiores furadas de toda a história da humanidade ; colocar as bases políticas de uma nação  nas mãos das leis de mercado foi um dosmaiores desastres já enfrentados pela pobre espécie humana . Nesse panorama , as questões sociais deixam de existir , pois até o conceito de sociedade é questionado por alguns arautos desse perverso modelo político-econômico ( Margareth Tatcher , a controversa "Dama de Ferro", chegou certa vez a declarar que "não existe sociedade , apenas indivíduos" ) . Nos anos 80 e 90 , sob o viés desse modelo político-econômico , a Inglaterra passou a ficar apinhada de desempregados e moradores de rua , enquanto os grandes empresários prosperavam . Um dos maiores símbolos do fracasso ( e da farsa ! ) do neoliberalismo foi a reação da população britânica diante da notícia do falecimento deMargareth Tatcher : saíram às ruas comemorando de felicidade , como se o time de futebol preferido tivesse vencido um campeonato . Situação altamente patética e contundente .

O único modelo político-econômico que conseguiu ter um relativo êxito foi o modelo social-democrata , que por sinal é o modelo usado pelos países do norte da Europa , região  com o melhor nível de vida do planeta . Esse modelo é um meio termo entre o socialismo e o neoliberalismo , pois consegue mesclar elementos de ambos , fazendo com que funcionem de forma harmônica : existe um Estado protetor ( mas não autoritário ! ) , que zela pelos direitos essenciais dos cidadãos , e ao mesmo tempo existe espaço para a iniciativa privada . Uma coisa não exclui a outra ; elas se complementam , e penso ser evidente a superioridade deste modelo político-econômico em relação aos demais . Os fatos deixam isso claro .

Mas agora vamos para a zona mas espinhosa de todas : o atual cenário político brasileiro .

Em minha humilde opinião , o Partido dos Trabalhadores está sendo erroneamente julgado , tanto por seus defensores quanto por seusdetratores . Os defensores teimam em não reconhecer que o PT não é indefectível , e está inegavelmente ligado a escândalos de corrupção e evidentes demonstrações de incompetência administrativa . Os pobres petistas não querem enxergar a atual imagem apodrecida do partido ,fazendo de conta que ainda estão em 1980 . Já os detratores , em sua grande maioria , destilam apenas um ódio cego ao partido , muitas vezes apenas repetindo o mantra interesseiro e tendencioso da grande mídia anti-petista , dando a entender que o Partido dos Trabalhadores foi o criador da corrupção no Brasil , deixando fora de sua alça de mira todos os demais partidos e governos anteriores . Alguns agem assim por simples ignorância ( pois tiram suas informações apenas de veículos como a Rede Globo , Revista Veja e sites sensacionalistas da internet ) , enquanto outros agem por má fé mesmo , ostentando uma visão política violenta e reacionária .

O PT tem defeitos inegáveis , e qualidades tão inegáveis quanto . O observador de boa fé ( que pensa na sociedade como um todo , sem pensamentos perversos e particularistas ) , se analisar a fundo a questão de forma acurada e imparcial , vai constatar a existência de ambos . Vamos primeiro aos defeitos : o Partido dos Trabalhadores deu seguimento a muitas práticas neoliberais herdadas do período do Governo FHC ; fez muitos conchavos com grandes empresas , seguindo a lógica do mercado , atrapalhando as questões sociais ; tentou mesclar política social com as leis do mercado , algo que é tão difícil quanto misturar água com azeite ; não realizou uma reforma tributária ,deixando de introduzir um modelo de impostos progressivos ; atolou-se em inegáveis escândalos de corrupção , tais como o "Mensalão" . Pois bem , agora vamos às qualidades : fomentou um inegável processo de redistribuição de renda , diminuindo o fosso entre ricos e pobres ;realizou programas de assistência social que diminuiu sobremaneira a quantidade de pessoas sofrendo com a fome e a falta de habitação ; investiu na criação de escolas e universidades , aumentandosobremaneira o contingente de crianças , jovens e adultos nas instituições de ensino .

O Partido dos Trabalhadores e seus representantes ( Lula , Dilma e demais membros ) estão em uma inegável crise política e de identidade , nadando em um mar de contradições que mescla extraordinárias qualidades e realizações com lamentáveis e escabrosos escândalos de corrupção . Em meio a isso tudo , o povo brasileiro fica jogado em um verdadeiro "cabo de guerra ideológico" , tensionados entre osdefensores e os detratores do partido do governo . É a situação política mais crítica de nosso país desde 1964 . Só espero que essa crise seja superada de forma democrática , com bastante racionalidade e ponderação , sem os arroubos violentos e irracionais que podem vir a suscitar um golpe de Estado . Façamos votos para que a democracia prevaleça !                                             

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

De Onde Vem os Políticos ?



De onde vem os políticos ?, texto de Luiz Domingues.

Desde sempre, a máxima espanhola que diz : “se hay gobierno en esta tierra, yo soy contra”, também domina o imaginário do brasileiro de uma forma muito contundente.

Na maioria das vezes, as reclamações procedem, pois a má gestão grassa em todas as esferas da administração pública, mas também a falta de reconhecimento da parte da população para com eventuais acertos e a boa vontade em acertar em muitos aspectos, é notória.

Esse é um primeiro ponto a se pensar.

Outro aspecto, tão gritante quanto a constatação de que vivemos uma época de onde nunca se desvelou tanta corrupção com uma roubalheira atingindo cifras inacreditáveis que se bem usadas em ações públicas tão necessárias, melhorariam setores que estão moribundos, caso da saúde e educação pública; fora a segurança; saneamento e infra estrutura que estão em patamar insuportável.

Portanto, um alimento e tanto para os “reclamões de plantão”, que mesmo que nada houvesse de errado no panorama da política, bradariam contra veementemente e agora diante das provas cabais surgindo, tem prato cheio para berrar.

É nesse ponto que a reflexão mais aprofundada não avança e ficamos na superfície da análise popularesca, que não propõe enxergar os fatos de frente, com o povo a ficar no “oba oba” dos linchamentos morais,  e agora com o advento das redes sociais da internet, isso ganhou proporção de histeria incontrolável.

Vejamos um exemplo prático que aos nossos olhos parece estranho pelo choque de culturas muitos diferentes : no Japão, um político que é desmascarado em alguma falcatrua, sente tanta vergonha pelo fato em que se envolveu, que tem vontade de morrer, desaparecer inteiramente, como única forma de se livrar da pressão que tal ato hediondo por ele cometido causou, com prejuízo à coletividade, e por conseguinte destruindo sua reputação pessoal, e pior ainda, envergonhando seus familiares.  

Isso é inimaginável na cultura brasuca carnavalizada, onde nada envergonha e tudo pode, não é mesmo ?

Então chego ao âmago da questão : se achamos normal urinar nas ruas; jogar lixo pelas calçadas; jogar entulho em qualquer lugar; destruir patrimônio público e privado; vandalizar; circular com bicicletas sobre calçadas; avançar o semáforo no vermelho; fazer conversões proibidas, obstruir entrada de garagens; furar filas; não respeitar idosos e deficientes físicos; mentir para obter vantagens pessoais; falar mal da vida alheia; praticar bullying; pedir coisas emprestadas e não as devolver ao seu dono; não honrar dívidas contraídas deliberadamente; gerar intriga; desdenhar das pessoas; e tantas e tantas falcatruas que o brasileiro comete diariamente e as considera como coisas corriqueiras, ou como dizem os mais dissimulados : “faz parte da nossa cultura”, como podemos colocar o dedo em riste na face dos políticos e empresários que perpetram esse espetáculo deprimente de corrupção e desvio de verbas ?

De onde vem o “jeitinho brasileiro” ??

A maldita concepção de “malandragem”, a cultura do “esperto que ludibria otários”, ou para ficar numa gíria mais moderna, os “manés”.

Essa ideia paradigmática que somos um povo cheio de malandragem, criou uma falsa noção de superioridade, que beira o ridículo. Todo brasileiro é “malandro”; é “esperto”, e ludibria facilmente os “manés”  gringos...

Ok, então...nós somos malandros que aplicamos pequenos golpes e arrancamos dinheiro dos “trouxas” dos gringos que vem fazer turismo aqui. OK, somos  “superiores” e eles , uns “otários”... 

Os Finlandeses; dinamarqueses; suecos; norte americanos; franceses; britânicos; alemães; suíços; japoneses...todos são uns otários, e nós é que somos “malandros”...

Diante dessa perspectiva, lhe pergunto caro leitor : de onde saem os políticos e os empresários que se envolvem nas falcatruas de corrupção, propinas, favorecimentos e desvio de verbas públicas com lavagem de dinheiro e afins ?

Tal categoria de seres não são humanos desse mesmo seio pátrio ?

Tais criaturas abomináveis não foram criados na mesma cultura da malandragem, que há séculos vem sendo valorizada e cantada em prosa e verso ?

Somos ou não somos um povo “macunaímico”, no pior sentido do conceito cunhado por Mário de Andrade, impregnado de valores equivocados acerca das questões éticas ?

Como podemos nos surpreender ao nos depararmos com a roubalheira em todas as esferas do setor público e de mãos dadas com as expectativas de boa parte da iniciativa privada, que acostumou-se com a máxima de que ”nada funciona se não se molhar a mão dos políticos” ?

Vejo portanto com bons olhos a ação da Polícia Federal; Ministério Público e demais órgãos envolvidos na determinação de apurar denúncias múltiplas que estão em alta voga na mídia, mas deixando a ressalva de que toda denúncia deve ser investigada a fundo e muitas vezes isso não acontece, com engavetamentos indevidos e uma velada torcida de um grupo “B” que quer apenas explorar as sujeiras do grupo “A”, blindando sua “tchurma” e agindo na pior prerrogativa possível, baixando o nível das discussões ao patamar da mentalidade das torcidas uniformizadas de clubes de futebol, ou seja, “os nossos bandidos são mais legais que os seus”...

Ora, enquanto não mudarmos a mentalidade, e leia-se uma quebra de paradigma histórica, ficaremos no limbo da civilização, chafurdando no terceiro mundo e reclamando do político safado que desviou milhões blá blá blá.

A consciência de que essa cambada de ladrões sai do mesmo povo em que eu e você faz parte, precisa ser encarada de frente e nossa missão, e eu quero crer que você leitor, não compactua com a imoralidade e tem caráter ilibado, começa pelo verdadeiro clamor que a camada honesta da população tem que fazer, que é mudar completamente a mentalidade do nosso povo e isso só se consegue mediante um mutirão pró educação, de forma maciça.

Talvez a atual geração esteja perdida, lamento ser realista e dizer isso, mas se os bebês que agora nascem começarem a ser criados com outra mentalidade, há esperança, aliás, sempre há.

Políticos e empresários corruptos e corruptores, não vem de Marte; Saturno ou de outra galáxia. São apenas brasileiros que cresceram acreditando na ideia de que somos todos “malandros” e nada se consegue com trabalho honesto e lucro justo.

Cresceram ouvindo os pais e os avós, dizendo que tudo só se resolve com “jeitinho”. Ouviram os seus professores dizendo que as “brechas da Lei permitem muitos deslizes”, e que imoralidade ou amoralidade não são tão graves se são passíveis nas aberturas vergonhosas que o texto capcioso das leis lhes dão margem. Entraram na vida adulta achando “normal” pagar e pedir propina; que fiscais são apenas achacadores oficializados; que “obter vantagem em tudo” é uma virtude...

Que se investigue; prove; julgue e castigue, todo corrupto e logicamente com ressarcimento da verba surrupiada, aos cofres públicos. Que se cobre a ação implacável para todos que cometeram atos ilícitos, sem exceção e doa a quem doer.

Mas que cheguemos à conclusão de que ser “malandro” é vergonhoso, tanto quanto achar que os gringos são “otários”. 

Compare os países de primeiro mundo ao Brasil e tire sua conclusão sobre quem são os verdadeiros “trouxas”...

Chega de bundalização !! Chega de malandragem !!

Quando Charles De Gaulle, então presidente da França, afirmou que o Brasil não era um país sério, lá no longínquo ano de 1968, os brasileiros ficaram ofendidos. Ora, falou alguma mentira ?

Recentemente, 2016, uma reportagem na mídia americana afirmou que o povo brasileiro dança nu nas ruas, em meio à uma epidemia terrível, perpetrada pela ação de um mosquito a lhe transmitir três doenças graves, alheio à catástrofe, referindo-se ao carnaval.

Seus pares brasucas se ofenderam, dizendo que o jornalista que assinou a matéria foi preconceituoso...

Com crise econômica; política; moral e epidemia alastrando-se pela profusão de mosquitos, o povo brasileiro abre mão do seu carnaval ? (eu sei que a festa atrai divisas, mas convenhamos, o dinheiro que entra pela via do turismo, dilui-se em mil bolsos e não necessariamente se reflete em ações públicas concretas que beneficiem a coletividade).

Pois é, quando vejo protestos e alguns justos até, penso na superficialidade que nos atravanca. 

OK, não é só pelos vinte centavos do aumento da tarifa dos ônibus urbanos, mas nunca se chega ao verdadeiro âmago da questão, ou seja : você, brasileiro, está disposto a deixar de ser “malandro” e não furar a fila ?

Pense nisso antes de arranhar a sua panelinha, na varanda gourmet da sua residência...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Não Precisamos de Fogos de Artifício

Não Precisamos de Fogos de Artifício,

texto de Luiz Domingues.

Passado o Reveillon, a reflexão é inevitável sobre o foguetório que encanta tanto as pessoas.
Milhões  de pessoas se aglomeram na Praia de Copacabana; na Avenida Paulista, e em todas as cidades brasileiras para comemorar a chegada do Ano Novo, e a pirotecnia parece indispensável para todos, como a justificar a sua permanência na rua para celebrar coletivamente a data.

Não só o Reveillon, mas várias datas ao longo do ano são comemoradas ao som e visual dos fogos de artifício, incluso comemorações de torcidas de times de futebol; manifestações políticas; reivindicações e protestos os mais variados, pequenas comemorações privadas, e até por razões nada nobres, como criminosos anunciando a chegada de suas mercadorias ilícitas...

Diante de tanta necessidade de extravasar sentimentos através de estampidos e luzinhas coloridas no céu, a pergunta é : não conseguimos  viver sem tal artifício ?

A julgar pela história, parece que o vício vem de longe, pois os registros sobre as tentativas de se manipular o fogo, remontam à era pré-histórica.

Oficialmente mesmo, a pirotecnia nasceu na China, cerca de dois mil anos atrás. Um experimento perpetrado por um alquimista chinês e completamente maluco, misturou salitre; enxofre e carvão, para em seguida aquecê-los.  

Isso resultou num pó preto que descobriu, era explosivo e recebeu o nome de “pólvora”. Através de inúmeros experimentos, constataram que poderia ser manipulado para gerar efeitos sonoros e visuais os mais diversos, alegrando as festividades, mas além disso, abriu caminho para um sem número de ramificações maléficas, dando origem às armas de fogo.

Nos tempos modernos, observamos que os fogos de artifício podem ser muito perigosos em muitos aspectos, infelizmente.

Mutilações terríveis; mortes; incêndios, e outras ocorrências decorrentes de seu mau uso, e que são condenadas amplamente pelo Corpo de Bombeiros, mas que ninguém dá ouvidos, a não ser depois que a tragédia acontece, estão no noticiário cotidiano.

Uma reclamação a mais, e que parece ser mais moderna a ser acrescentada nesse rol de malefícios, é o trauma gerado em animais domésticos pela incidência do barulho.

Parecendo um ataque nuclear, dependendo do local, é de se imaginar o quanto os animais sofrem sentindo um medo incomensurável.

Há relatos de muitas ocorrências de animais que não suportam o foguetório e infartam, apavorados pelo medo incompreensível que sentem diante de tal artilharia.

Vendo reportagens na TV sobre o colapso da saúde pública no Brasil, foi impossível não traçar um paralelo com os shows pirotécnicos do Reveillon.

Vendo pessoas com apêndice supurando sendo mandadas de volta para as suas casas; pessoas com AVC; aneurismas e infarto; gestantes dando a luz nas calçadas, gente com fraturas expostas chorando na rua pela falta de atendimento, entre outras barbaridades que vi num hospital de Realengo, no Rio de Janeiro, como não pensar no dinheiro que foi literalmente queimado em milhares de fogos que foram deflagrados para alegrar uma festa que tem lá seu simbolismo psicológico para a maioria das pessoas, admito, mas que na prática, é só um rito social, portanto, o que acontece não passa de um dia que acaba e começa outro ?

Antes que me acusem de ser piegas ou “ecochato” militante, alegando que uma coisa não tem nada a ver com a outra, e o dinheiro arrecadado com o turismo faz valer todo o esforço para que existam os shows de Reveillon, realmente não dá para não pensar que um gesto de boa vontade poderia ser dado pelos governantes, e creio que o povo entenderia, pois estamos todos vivendo um momento de crise.

Diante dessa draga em que estamos, será que o dinheiro gasto com essas festas de rua não teria sido melhor aproveitado para socorrer os hospitais públicos que estão à míngua ?

Sei que existe uma burocracia institucional entre as três instâncias do poder público, e claro que o dinheiro de uma prefeitura não pode passar assim, sem mais nem menos para socorrer um órgão federal etc  etc. Mas será que não poderia suprir emergencialmente em forma de espécie, como uma doação pura e simplesmente ?

Não ajudaria pegar o dinheiro desses fogos de artifício e comprar um lote de seringas descartáveis; luvas; algodão; bandagens, álcool; material de higiene, e outros tantos produtos de necessidade básica, e que faltam vergonhosamente no atendimento dos hospitais públicos ?

Quantas macas dá para comprar ? Quantos cobertores e lençóis ?

Enfim, não daria para não ter festa pirotécnica, e mesmo assim as pessoas não poderiam comemorar saindo às ruas para brindar o ano novo sem essa “perfumaria” cara ?

Hora de pensar no quanto o estampido e as luzinhas  são reais necessidades que temos para ornamentar nossas comemorações, extravasar ou reclamar de alguma coisa etc etc...    

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Gang 90 e as Absurdettes : O "Marco Zero" do BRock Oitentista !

Gang 90 e as Absurdettes : O "Marco Zero" do BRock Oitentista !

Texto de Fernando Becker.

Desde os sucessos de Celly Campello que o rock vem marcando presença no cenário cultural brasileiro , influenciando principalmente os hábitos e os costumes da camada jovem da população . Como qualquer outro bom movimento cultural cosmopolita , o rock transcendeu suas origens culturais ( norte-americanas , no caso ) para ganhar o mundo , mesclando-se com os mais variados elementos culturais de nosso planeta . 

Celly Campello , como já foi frisado , foi a feliz responsável pela introdução desse gênero musical cosmopolita em nosso país , junto com seu ilustre irmão Tony Campello . Nessa época ( fins da década de 50 ) o rock era visto como uma manifestação iconoclasta simplesmente por seu ritmo e pela influência dele no corpo dos jovens que requebravam nas reuniões dançantes do período , mesmo sem ostentar nenhuma conotação ideológica em suas composições : era música pra dançar , e ponto final . Esse panorama ganhou força na década seguinte , com os sucessos estrondosos da Jovem Guarda , mas acabou sofrendo uma mutação no final da década : com a eclosão doTropicalismo , a cultura rock passou a ser associada à arte devanguarda , carregando em si os mais variados vieses ideológicos ; o rock já não servia apenas pra dançar , mas também pra ser um catalisador de ideias sobre o mundo .

Seguindo esse processo cultural , o rock brasileiro entra na década de 70 representado por inúmeras bandas que mesclavam a estética do rock internacional da época ( hard rock , heavy metal , progressivo , glam ) com os elementos culturais genuínos de nosso país , sempre ostentando tanto um alto potencial dançante como uma alta riqueza de ideias . O rock já não era mais inocente como nos tempos de Celly Campello e início da Jovem Guarda ; junto com a questão puramente rítmica estava toda uma ânsia de expressar uma visão de mundo , visão essa que era absolutamente libertária , principalmente se levarmos em conta o panorama político da época : auge do Regime Militar Brasileiro . Como exemplo de bandas brasileiras do período , podemos destacar nomes comoSecos e Molhados , Casa das Máquinas , Made in Brazil ,Vímana .

Porém havia um problema que travava a plena disseminação do rock entre os jovens brasileiros da época : não havia ainda um cenário adequado para o pleno desenvolvimento desse gênero musical no Brasil ; o governo militar via com maus olhos os roqueiros ( eram tidos como um mau exemplo para os jovens da nação ) , e isso acabava respingando nas rádios e gravadoras , que nunca concediam o devido espaço ao gênero , mesmo ele sendo amado e idolatrado pelos jovens . Esse panorama só iria começar a mudar no final da década , com o advento da Abertura Política do General João Figueiredo : a partir de então , a liberdade de expressão estava ( quase ) vigorando novamente , e o universo das artes e espetáculos perderiam um pouco de suas mordaças .

E por fim chegamos à década de 80 , a Década da Abertura ; toda uma ânsia de liberdade até então represada passava a fluir de forma espontânea . O universo das artes e espetáculos entra em ebulição , com inúmeros livros , filmes , discos e peças teatrais ( até então barrados pela censura ) vindo ao conhecimento do grande público . As liberdades de expressão e de comportamento passam a ser a ordem do dia , e tudo isso mexe principalmente com os jovens , que já não podiam mais sopitar sua ânsia libertária . O grito de liberdade pedia espaço pra ecoar em toda a nação , e seu principal porta-voz seria ele mesmo : o bom e velho rock'n'roll , porém dentro de uma nova roupagem .

Essa nova roupagem seria a New Wave , movimento pop que já vinha ganhando espaço nos cenários cosmopolitas europeus e norte-americanos , representados por nomes como Blondie ,B-52's , Gary Numan , Elvis Costello . O caminho estava aberto para a eclosão de um movimento musical que seria popularmente conhecido como BRock . Era a cultura rock finalmente ganhando todos os holofotes dos meios de comunicação brasileiros , aderindo totalmente às ânsias dos jovens e da população em geral da nação . Esse movimento costuma ser lembrado como tendo sido deflagrado no ano de1982 , através do sucesso estrondoso do conjunto Blitz , sendo seu apogeu o Festival Rock in Rio , em 1985 . Os nomes mais lembrados do movimento são Cazuza , Lobão , Legião Urbana ,Paralamas do Sucesso , Blitz , porém quase ninguém lembra da banda que realmente preparou o terreno para que todas as demais brilhassem : trata-se da injustamente esquecida Gang 90 e as Absurdettes , liderada pelo jornalista multimídia Julio Barroso . Toda a estética New Wave do movimento fora introduzida pelo Gang 90 .

O criativo e inquieto Julio Barroso , que havia trabalhado como DJ e jornalista em Nova York , ficara absolutamente fascinado pela eclosão do New Wave na grande metrópole norte-americana , e voltou de lá iluminado por uma ideia : "É possível mesclar os elementos cosmopolitas da música pop internacional com os elementos culturais genuinamente brasileiros" . Barroso chegou a chamar essa nova estética deNew Brega , e ela se tornou a fórmula do sucesso para todas as bandas de renome do período . Após conhecer o talentoso compositor e arranjador Herman Torres , e as belas e carismáticas cantoras May East , Alice Pink Pank e Lonita Renaux , Barroso forma a Gang 90 , mesclando de forma brilhante os mais variados elementos da cultura pop internacional ( New Wave , Música Eletrônica , literatura beatnik ) com elementos tipicamente brasileiros . A banda tem enorme destaque no Festival MPB Shell de 1981 , brilhando com a música Convite ao Prazer , e no mesmo ano lança noFantástico o hit Perdidos na Selva , atingindo assim uma considerável popularidade . Em 1983 vem o auge da banda , quando a música Nosso Louco Amor passa a ser o tema de abertura da novela homônima da Globo , sendo que no mesmo ano há o lançamento do primeiro LP : Essa tal de Gang 90 e as Absurdettes . O sucesso parecia consolidado , até que uma tragédia inusitada veio para abortar a ascensão do grupo : Julio Barroso morre em circunstâncias até hoje mal explicadas , em junho de 1984 , ao cair da janela do prédio em que morava ( uns falam em acidente , outros em suicídio ) . Era o fim da carreira de um artista que havia encarnado o espírito do Brasil da década de 80 , e de sua promissora banda ( os demais integrantes lançaram mais dois discos , em 1987 e 1990 , mas sem a presença de Barroso eles não tiveram quase nenhum brilho ) .

Podemos dizer que Evandro Mesquita e sua banda Blitzdeflagraram o movimento do BRock oitentista , no importante ano de 1982 , porém o que pouca gente sabe é que ele sugou vários elementos estéticos da Gang 90 , dando a eles apenas um ar mais adolescente e comercial . Julio Barroso e sua banda prepararam o terreno para o movimento , e é por isso que podemos dizer sem titubear : Gang 90 e as Absurdettes foram o marco zero do BRock oitentista !                          

                          

                              

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O Homem que Queria Iluminar o Mundo!

O Homem que queria iluminar o mundo!

Primeiro texto da nova colaboradora Jani Santana Morales.

Com tanto avanço tecnológico, não é possível

que não tenham desenvolvidos maneiras

alternativas concretas de gerar eletricidade,

limpa sem combustão.

Nosso sistema atual de geração de energia é

uma realidade culturalmente retrógada.

Sendo a Terra um imenso organismo vivo é

óbvio que pode gerar e armazenar qualquer tipo

de energia.

Só que o setor energético gera trilhões  por ano

e os governos e magnatas não querem perder

essa “boquinha”.

Bom, leitores, essa tecnologia já existe e não é de

hoje. Apresento-lhes um dos maiores gênios de

todo o Universo: Nikola Tesla, o inventor da

corrente alternada e da energia livre, onde é

possível transformar e armazenar energia e

transmitir a população.

Se temos todo o conforto que proporciona a

energia elétrica  é graças a sua invenção. Do

contrário o mundo já teria entrado em colapso

com o crescimento da humanidade, tentando

utilizar apenas a corrente contínua.

Tesla nasceu na passagem do dia 09 para o dia

10 de Julho de 1856, na vila de Smijan, na

Cróacia, a meia noite em plena tempestade com

inúmeros raios, como se previssem  sua

importância nas ciências físicas.

Sua parteira comentou à sua mãe: Esse menino

será das trevas. Sua mãe retrucou: Não, ele trará

a luz. Dito e feito.

Em 1884 mudou-se para os Estados Unidos,

estabelecendo-se em Nova York e se torna

assistente de Thomas Edison.

Tesla foi um gênio inigualável e defensor da

energia livre e gratuita para todos.

Devido a sua filosofia de vida e seus inventos em

prol da humanidade ele foi perseguido durante

toda sua vida científica.

Seu primeiro perseguidor oficial foi Thomas

Edison, que fez o impossível para desacreditá-lo

no meio científico, tentando evitar que o projeto

da corrente alternada chegasse a público.

Há de convir que, transformar qualquer tipo de

energia em outro é um trabalho árduo e muito

lucrativo. Assim sendo, uma invenção de um

aparato que quebrasse o moto- perpétuos,

produzindo energia capaz  de colocar máquinas

em funcionamento, em grandes quantidades e

em custo baixo, ou mesmo gratuito, seria uma

ameaça a economia mundial.

Tesla foi considerado uma ameaça para o

governo, também pela sua filosofia, ele sempre

buscou a  Ciência como uma forma de evoluir o

pensamento humano, desprezando todo  o

retorno financeiro.

Seu laboratório e residência eram

constantemente saqueados e destruídos.

Tesla não desistiu. Continuou criando e

inventando. Chamou a atenção do Governo que

passou a vigiá-lo de perto e também destruindo

seu laboratório. Como não podiam pará-lo sem

mata-lo, resolveram denegrir sua imagem ao

público. Fizeram com que Tesla fosse

considerado louco e lunático e assim a

comunidade científica não o reconhecia mais

como um membro. Ele, sem financiamento ficou

sem condições de aperfeiçoar suas invenções e

criar mais.

Acabou falecendo empobrecido em 1943, aos 86

anos de idade. Teve projetos confiscados e

destruídos pelo F.B.I., outros foram comprados

pela empresa JP Morgan que hoje, segundo a

Forbes,  é uma das maiores empresas do mundo.

Tudo o que existe hoje, tecnologicamente

falando, sem as descobertas de Tesla não seriam

possíveis.

Se for possível que a energia livre pode ser

aperfeiçoada, o resultado é que todo o planeta

poderá ser alimentado por uma única fonte de

energia. Uma fonte infinita de energia ao nosso

alcance.

 Ninguém teria que depender mais dos

combustíveis fósseis. Desde  a eletricidade

necessária para alimentar uma lâmpada até a

construção de motores para viagens

interestelares, anti gravidade, etc, tudo seria

feito de forma gratuita com a energia livre.

Será que um dia será permitido que isso

aconteça?

“Um mundo novo deve nascer, um mundo que

justifique os sacrifícios oferecidos pela

humanidade. Este novo mundo deve ser um

mundo onde não haverá exploração do fraco

pelo forte, do bom pelo mau; onde não haverá

humilhação do pobre pela violência do rico;

onde produtos do intelecto, da ciência e da arte

servirão à sociedade pelo embelezamento da

vida, e não para indivíduos adquirirem riqueza.

Este novo mundo não será um mundo de

oprimidos e humilhados, mas de homens livres e

nações livres, iguais em respeito e dignidade”.

                                                       NIKOLA TESLA

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Entre o Medo e a Petulância.

Entre o Medo e a Petulância.
Texto de Luiz Domingues.

Vivemos tempos difíceis em termos de educação; cultura e cidadania, e seus múltiplos desdobramentos.
As razões para que tenhamos chegado nesse estágio triste, são muitas.
Superpopulação gerando desafios incalculáveis para a sociedade gerir infraestrutura,  explica de forma generalizada a questão, e tal repercussão chega na óbvia conclusão de que a educação não consegue dar conta, tanto em termos de pedagogia escolar, quanto na educação familiar.
Com o colapso que presenciamos, fica inevitável a comparação com tempos remotos, onde o grau de educação, e tolerância social, eram maiores.
De fato, basta andarmos nas ruas; lermos as notícias na mídia; ou vermos o bombardeio no jornalismo televisivo / radiofônico e pela Internet, para verificarmos que vivemos tempos de uma inversão total de valores.
É impressionante observarmos que a truculência atual dos jovens, mesmo em tenra idade, vem a reboque do desrespeito absoluto às pessoas mais velhas; seja dentro do seio familiar, sejam nas relações educacionais formais, e no âmbito geral da sociedade, esbarrando na absoluta falta de comprometimento com regras básicas de convívio social.
A absoluta decadência da educação formal pública, acompanha a escalada da invasão da subcultura e da anticultura, perpetrada por marqueteiros que defendem interesses escusos no amplo domínio da difusão cultural, isso é um fato, portanto, anexa-se como adendo triste, certamente.
Agora, se o panorama é tétrico e qualquer pessoa de bem não pode compactuar com a ideia de jovens agredindo; humilhando e ameaçando professores em sala de aula, muitas vezes armados dentro do ambiente escolar, por outro lado, penso que radicalismos de extrema direita, clamando por volta de opressão de cunho medieval, não é o melhor caminho para colocar o mundo em “ordem”.
Devemos caminhar para a frente e não para trás, a grosso modo.
Trazer de volta uma educação espartana, baseada no medo; na ameaça de punição; na aniquilação absoluta do senso crítico, gerando cidadãos meramente obedientes e facilmente manipulados pelos poderosos de plantão, para lhes servirem como funcionários operacionais e consumidores a lhes dar dinheiro, sistematicamente, não é aceitável.
Não quero viver na Idade Média, tampouco na Antiguidade, quero um mundo contemporâneo, do século XXI, vivendo a revolução tecnológica total e pensando na construção de um mundo que equalize suas demandas por sustentabilidade.
Portanto, penso que devemos pensar num ponto de equilíbrio na questão educacional onde possamos estancar a decadência total perpetrada pela mentalidade imposta da anticultura, porém, sem necessariamente trazer valores antiquados e decorrentes de metodologia baseada na extinção do senso crítico do ser humano, condicionando-o à um ser apático e bovino.
Entre o petulante maloqueiro que ameaça o professor com uma faca na sala de aulas, e o professor carrasco que impõe respeito pela tortura psicológica e/ou física propriamente dita, nossa obrigação é buscar um ponto de equilíbrio na pedagogia moderna.
A resposta é a confiança mútua sendo estabelecida.
E nesse contexto, todos temos  que colaborar. O governo, com a boa vontade política de investir maciçamente na educação; os difusores culturais no sentido de reverem a sua estratégia vergonhosa de manter monopólio e pior que isso, incentivar a anticultura visando apenas o seu lucro fácil, sem medir o estrago educacional que estão gerando com tal atitude; e a sociedade em geral, buscando dias melhores, amenizando a convivência social que nesse caos, tende a explodir, tamanha a pressão crescente que faz com a situação atual seja semelhante à uma ampola de nitroglicerina sendo colocada na boca acesa de um fogão.




domingo, 6 de dezembro de 2015

Pornochanchada : A Forma Mais Viável de se Fazer Cinema Durante o Regime Militar Brasileiro.

Pornochanchada : a forma mais viável de se fazer cinema durante o regime militar brasileiro.

Texto do colaborador Fernando Becker.
 
O período da Ditadura Militar ( 1964 - 1985 ) notabilizou-se por uma série de graves prejuízos para a população brasileira ( restrições nos direitos políticos e liberdade de expressão ; amordaçamento dos sindicatos e dos direitos trabalhistas ; disseminação da prática da tortura por parte dos militares , etc. ) , e isso também atingiu o universo das artes e espetáculos : inúmeros livros , peças teatrais , discos e filmes foram banidos ou severamente mutilados pelo aparato de censura do regime , infligindo sérios danos à vida cultural brasileira do período . Toda manifestação artística que pudesse apresentar algum cunho contestatório aos valores ideológicos dos militares era severamente rechaçada pelos órgãos de censura do governo .

No universo cinematográfico , a década de 60 apresentou dois movimentos decinema de vanguarda que assumiram um importante papel de oposição aos valores do regime : o Cinema Novo e o Cinema Marginal . Ambos os movimentos destilaram uma estética revolucionária , nunca antes vista na história do cinema brasileiro : filmes com uma narrativa fragmentada , explorando as mais inovadoras soluções estéticas dos filmes de vanguarda europeus , buscando expressar as idiossincrasias culturais e sociais do povo brasileiro . Porém ambos os movimentos - mesmo sendo irmãos e com inúmeros pontos de convergência -  apresentavam suas diferenças e peculiaridades : o Cinema Novo ostentava um discursoessencialmente marxista ; praticamente todos os cineastas do movimento ( com especial destaque para Glauber Rocha ) pretendiam esquematizar em seus filmes conceitos ideológicos retirados de manuais de sociologia , buscando expressar  ( ao lado de elementos culturais essencialmente brasileiros ) as lutas de classe que estariam assolando a população brasileira . O Cinema Marginal , por sua vez , tentava enfrentar os valores repressivos do regime com as armas da contraculturaque vinha revolucionando os meios artísticos europeus e norte-americanos da época : ao invés de enveredar por um caminho ostensivamente político e pautado pelo genuíno folclore brasileiro - tal como faziam os cineastas do Cinema Novo - , preferiam fazer resistência com os valores do indefectível "tríptico"  "sexo , drogas e rock'n'roll" . Merecem destaque especial os filmes de Julio Bressane e Rogério Sganzerla .

Porém havia um amontoado de problemas para a exibição dessas obras de vanguarda : os órgãos repressores do regime não permitiam que boa parte delas viesse a público , sendo que em muitos casos elas eram impiedosamente cortadas e descaracterizadas , perdendo sua força e identidade originais . Os cineastas passaram a ter de abarrotar os filmes com alegorias herméticas para poder driblar a censura , porém desta forma o diálogo com o grande público ( que já era difícil e limitado ) passou a ser praticamente inexistente à medida que o regime militar ia ganhando contornos cada vez  mais totalitários ( o período de vigência do AI-5 , principalmente sob o Governo Médici , foi o mais difícil de todos ) . Filmes comoPindorama , de Arnaldo Jabor , são exemplos claros disso . O público , desta forma , praticamente não conhecia os filmes do Cinema Novo e do Cinema Marginal , fazendo com que os cineastas de ambos os movimentos ficassem na triste condição daquele que fala sozinho .

Diante deste triste panorama , uma coisa era certa : todo profissional de cinema ( incluindo aí diretores , roteiristas , produtores e atores ) que realmente quisesseganhar a vida fazendo filmes , durante a vigência do AI-5 , deveria optar pela senda do filme despolitizado e meramente de entretenimento , sem discursos ideológicos ostensivos . Caso contrário , morreria de fome ou ficaria apenas falando sozinho . E é justamente nesse "vácuo cultural" aberto pelos militares que entra em cena o principal gênero cinematográfico brasileiro da década de 70 ( e um dos mais emblemáticos de todos os tempos , responsável pelo estigma que o cinema nacional passou a ter de ser representado essencialmente por filmes abarrotados de palavrões e mulheres nuas ) : a pornochanchada , um gênero essencialmente lúdico e de entretenimento , que buscava apenas atiçar o que havia de mais primário no universo dos espetadores : seus instintos sexuais . Era o gênero perfeito para o grande público que queria apenas desanuviar a mente em relação aos problemas cotidianos , e também aos profissionais de cinema que realmente queriam sobreviver fazendo filmes .

 O termo pornochanchada era uma simbiose entre os termos pornografia ( apenas uma tímida alusão , pois nunca houve sexo explícito nas produções ) echanchada ( o gênero cinematográfico mais popular de toda a história do cinema brasileiro , baseado no teatro de revista e nos filmes de Hollywood ) . As produções eram extremamente baratas ( e em muitos casos extremamente mal feitas ) , e o universo ficcional girava apenas em torno de temas que abordassem aspectos da sexualidade humana , sempre em tom jocoso e escrachado . Os filmes eram produzidos em sua grande maioria por produtoras sediadas na região paulista daBoca do Lixo , e entre os principais diretores do gênero destacam-se nomes comoCarlos Reichenbach , Ody Fraga e Fauzi Mansur . Dentre os atores e atrizes que brilharam no gênero , merecem destaque nomes ilustres como David Cardoso ,Nuno Leal Maia , Vera Fisher , Matilde Mastrangi e Selma Egrei .

O sucesso estrondoso das pornochanchadas tem explicações precisas : as temáticas de cunho sexual e cômico , de fácil assimilação por parte do público ; esquema de produção simples e barato , onde a bilheteria dos filmes pagava com sobras os custos de produção ; uma boa aceitação por parte do governo militar em relação aos filmes : até aconteceu de muitos filmes serem censurados ou mutilados , mas de uma forma geral eram bem aceitos pelos militares , pois funcionavam como a velha "Política do Pão e Circo" do antigo Império Romano , onde as diversões populares serviam essencialmente para manter o povo alienado em relação aos problemas políticos e sociais que o cercavam . Desta forma , pensar em mulher pelada poderia ser uma forma de se desviar o pensamento de temas políticos .

Os filmes que compõem o universo das pornochanchadas não são todos iguais , como muita gente pensa . Ao lado de produções pobres e medíocres existem produções inteligentes e criativas , tais como o filme O Doce Esporte do Sexo , rodado em 1972 por Zelito Viana ( e estrelado por seu ilustre irmão Chico Anysio ) . Eles formam um belo painel da sociedade de classe média brasileira da década de 70 ( que pretendia , em sua grande maioria , apenas curtir as benesses do"Milagre Econômico" , sem refletir sobre os aspectos políticos que o sustentavam ) , e também deixam claro que era possível sobreviver fazendo cinema no auge dos"Anos de Chumbo" . Com sua leveza e irreverência , foram uma espécie de"sopro de ar fresco" na pesada conjuntura do período do AI-5 , e hoje compõem a galeria dos grandes clássicos da história do cinema brasileiro