sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sujar, Pichar, Vandalizar, Destruir...



Sujar, pichar, vandalizar, destruir...,texto de Luiz Domingues.

O termo “vandalismo” vem da antiguidade, quando  tribos de origem germânicas, chamadas de “Vândalos” invadiram Roma, e provocaram uma onde de destruição, pilhagem,  e agressões generalizadas.

Obviamente selvagens, eram considerados bárbaros pelos romanos e daí, a palavra “vândalo” ganhou conotação de gente de baixa qualificação cultural, disposta a destruir o patrimônio público e/ou privado; promover algazarras; agressões gratuitas contra pessoas inocentes a esmo etc.

Ao longo da história, tal conotação fortaleceu-se, e o vandalismo tornou-se o termo para designar esse tipo de ato provocado por essa gente.

Bem, na antropologia; psicologia; semiótica; pedagogia, e até na pediatria, existem teses as mais variadas para entender a motivação por trás desse tipo de atitude/ mentalidade.

Uma das mais usuais, é a de que no final da infância e começo da adolescência,  os hormônios estão explodindo, e isso necessita de vazão.

De fato, isso procede, mas se fosse uma coisa normal buscar tal escape através da destruição, não haveria civilização, e nem as pinturas rupestres teriam escapado nas cavernas, não acham ?

Outra boa explicação vem da psicologia. A explosão da puberdade provoca a necessidade de autoafirmação para os meninos, através da extrapolação da energia bruta, demarcando território entre os machos; estabelecendo lideranças entre grupos, na base do mais forte, ou que se sobressai pela inteligência bélica; para chamar a atenção das meninas.

Como adendo da tese acima descrita, acrescento que nos últimos tempos, mudanças de parâmetros socioculturais fazem com que as meninas busquem o mesmo princípio, baseado na força bruta, com agressividade.

Isso põe em cheque a tese de que as diferenças de cromossomos e hormônios sejam estáticas e indissolúveis. Pois o fato das meninas terem pouca quantidade de testosterona no seu organismo, não significa que não possam ter um grau de agressividade parecido com o dos meninos.

Independente disso, se testosterona fosse desculpa para destruir, recorro ao raciocínio expresso no primeiro item : não teríamos construído uma civilização; cultura; ciência; arte, etc etc.

A semiótica também dá sua visão para o caso. Se tudo é relativo na questão da significado/significante, obviamente que destruição; sujeira; rabiscos; dejetos e que tais, são “feios” relativamente, pois podem significar “bonitos” sob outro ângulo.

Claro, enquanto teoria meramente subjetiva, faz sentido, mas na prática civilizatória, isso não pode ser interpretado dessa forma simplista. 

Ninguém que tenha as faculdades mentais em ordem, rasgaria uma nota de cem dólares sob a alegação de que numa visão paralela do universo, aquela nota não tem valor algum...

No campo da cidadania, é que os parâmetros para analisar tal questão, parecem ser os mais sensatos, e que me perdoem os que desprezam a civilização, e sobre quais forem as suas alegações de ordem política; ideológicas, ou sociológicas.

Numa ideia básica de que a urbe é uma mera extensão de sua habitação, o raciocínio perene é : você destrói sua casa; vive num autêntico chiqueiro; gosta de condições insalubres de higiene e segurança; aprecia a feiura estética dos escombros ?

Antes que se apressem em contra argumentar, sim, eu sei que existem pessoas que vivem assim, e entre elas, há as que gostem de viver sob tais condições.

Tirante as pessoas acometidas de patologias de ordem mentais, quem realmente aprecia viver dessa forma ?

Portanto, apelando para o bom senso da maioria, e excetuando-se alguns tipos de pessoas com comportamento não padronizado, tais como :

Os prejudicados por doenças de ordem mental; que  sejam sociopatas; misantropos; adeptos de seitas religiosas/ filosofias radicais que preguem como norma o abandono das normas sociais, com renúncia absoluta dos valores, normas e parâmetros da sociedade moderna; os adeptos de sistemas políticos radicais baseados em niilismo; os seguidores de estéticas niilistas que buscam no confronto com a dita normalidade vigente, sua razão de ser para se expressar, e os simplesmente anti sociais e dispostos a chamar a atenção pela excentricidade de ser “do contra”, a pergunta que não quer calar é :
Para que praticam o vandalismo contra o patrimônio público e /ou privado ?

Primeiro ponto : tirante as pessoas de setores “especiais” que descrevi acima, a maioria, teoricamente, gosta de viver em casas confortáveis; bem acabadas; bem decoradas ao seu gosto cultural, limpas e organizadas.

Falei algo absurdo ?

E salvo algum acidente doméstico, ou até mesmo um momento de fúria esporádica, e motivada por uma briga familiar mais exacerbada, quem em sã consciência sai vandalizando o próprio lar, quebrando objetos, móveis e utensílios, espalhando sujeira e pichando as paredes com rabiscos horrendos ?  

Reitero, nem percam tempo em contra argumentar que existem pessoas com tal mentalidade, porque de pronto lhes digo : sim, sei que existem, mas representam uma minoria ínfima.

Partindo dessa premissa, se a cidade é uma extensão de nossas casas, por que devemos aturar a destruição sistemática dos equipamentos urbanos; os monumentos; jardins & parques ?

Por que devemos nos acostumar com o lixo espalhado nas ruas; calçadas quebradas; lixeiras estraçalhadas pelos vândalos ?

Por que vivemos em meio a escombros, odores fétidos; placas de sinalização rabiscadas ?

Enfim, por que no Brasil ainda impera a mentalidade da miséria urbana, como padrão ?

Então chego ao último item que teria uma possível explicação acadêmica : trata-se de uma questão cultural.

Visto sob parâmetro sociológico, em países como a Finlândia;  Suécia; Japão; Alemanha, e Suíça, para ficarmos em poucos exemplos apenas, a quase ausência de vandalismos em suas respectivas sociedades, denotam um outro tipo de mentalidade cultural generalizada, e que faz toda a diferença, portanto.

Em suma, como quase tudo o que envolve comportamento, a chave é : educação.

Se desde pequeno, o cidadão for educado a não achar correto jogar a embalagem de uma bala no chão; a não achar bonito rabiscar a parede com canetinha; a respeitar as regras de trânsito, mesmo como pedestre, e que os monumentos da cidade são objetos de arte, e que representam simbolismos importantes da sua própria história, tanto quanto os seus álbuns de fotografias de família, que ele não destruiria, acredito que em duas gerações, no máximo, as coisas mudariam.

Portanto, o desafio educacional vai muito além da erradicação do analfabetismo, tampouco a melhora da qualificação para o “mercado de trabalho”.

A grande tarefa é mudar a mentalidade de um povo que se divide entre os que acham “legal” viver num chiqueiro; e os que sentem resignação por esse status quo, pois simplesmente não acreditam que o Brasil possa ter outra qualificação sociocultural.

Voltando ao início da matéria, de onde vieram mesmo os vândalos, aqueles trogloditas bárbaros que horrorizaram Roma ?

E o que se tornou a Alemanha , séculos depois, senão um exemplo de organização social de altíssimo padrão civilizatório ?

Pois é...educação !!

terça-feira, 3 de março de 2015

Jogadores de Futebol Escravizados ou Cafetinados ?



Jogadores de futebol escravizados ou cafetinados ?, texto de Luiz Domingues.

Quando o futebol se tornou profissional no ano de 1933, acabou o romantismo, embora na percepção generalizada, o romantismo no futebol tenha durado até meados dos anos sessenta.

O chamado “amor à camisa” tornou-se uma farsa, salvo honrosas exceções, com todo mundo preocupado em correr não atrás da bola, mas do vil metal.

Com a instituição da Lei do Passe, os clubes asseguravam seus direitos com mão de ferro e com o tempo, essa engrenagem revelou-se muito parecida com o antigo sistema escravagista, mesmo que disfarçado nos seus meandros jurídicos, a lhe garantir constitucionalidade.

Ou seja, o clube tinha o chamado “passe” de cada jogador, que era um direito de propriedade sobre o atleta.

Mesmo que o contrato de trabalho entre atleta e clube estivesse vencido, ou em situações limítrofes de não pagamento de salários por parte dos clubes, ainda assim o atleta não poderia simplesmente deixar o clube e procurar outro para jogar, pois seu vínculo só era rompido mediante a compra de seu “passe” por outro clube.

Portanto, os clubes negociavam entre si, a seu bel prazer, tratando os atletas como verdadeiras mercadorias.

Mesmo tendo em conta o fato de que numa transação dessas, o atleta ganhava 15 % do valor da negociação, ainda assim era uma relação aviltante, caracterizando uma ação escravocrata pré-Lei Áurea, apesar do disfarce, e da brecha jurídica que a legitimava.

Portanto, tal lei abriu campo para que os clubes usassem de expedientes de coação, nada morais, como por exemplo, colocar um jogador no ostracismo, caso lhe criasse problemas, praticamente destruindo sua carreira.

Demorou décadas para os jogadores se mobilizarem para mudar tal relação de trabalho.

Valendo-se da realidade de baixa taxa de instrução da maioria dos jogadores, demorou para que aparecessem indivíduos com maior grau de discernimento, e poder de mobilização para exigir tais mudanças

Afonsinho, no final dos anos sessenta, foi um dos primeiros a questionar publicamente tal sistema feudal no futebol profissional, e sofreu muitas retaliações não só profissionalmente, mas também por ter sua liderança questionada pela ditadura, que em tudo enxergava infiltração esquerdista.

Algum tempo depois, Sócrates; Vladimir e Casagrande, ao lado do diretor de futebol, Adilson Monteiro Alves, criaram a famosa “democracia corintiana”, instituindo um conselho informal para a modernização das relações do futebol, mas circunscrita ao seu clube, e sem espalhar-se nos demais.

Aliás, a decantada democracia corintiana, pouco mudou a maneira arcaica como o Corinthians era administrado, nas mãos de uma figura paleozoica como Vicente Matheus, e tais conquistas que obtiveram em âmbito interno, restringiram-se a questões protocolares do cotidiano do clube, como a questão da concentração antes dos jogos, e participação dos jogadores em algumas decisões de bastidores, tão somente.

Numa questão fundamental como a Lei do Passe, os democratas corintianos falaram, é bem verdade, mas sem influenciar decisivamente na sua modificação.

Então chegou o momento que se tornou insuportável continuar naquele regime trabalhista escravizante, e com o Rei Pelé empossado como Ministro do Esporte, no Governo FHC, uma equipe de juristas elaborou a Lei que acabaria com essa relação medieval e aviltante, com os jogadores podendo enfim serem tratados com dignidade profissional.

Era o fim da Lei do Passe, e a instituição de uma nova ordem, com o jogador passando a ter muito maior participação no seu destino.

Tudo muito bonito, claro, mas ninguém mediu as consequências dessa nova regulamentação.

Os clubes chiaram, é claro. Sua argumentação tinha até certos pontos onde havia uma coerência administrativa e comercial.

Por exemplo, a questão da formação de jogadores, nas categorias de base. Se o jogador é livre para jogar onde quiser, como qualquer trabalhador que sai de uma empresa, e entra na sua concorrente que lhe ofereceu mais, que incentivo teria doravante os clubes em formar categorias de base ?

Se eu invisto num moleque de 12 anos, e vou gastando com o seu desenvolvimento à medida que cresce não só fisiológica e cronologicamente, mas sobretudo em sua ascensão técnica, como fico quando ele atinge 17, e já chamando a atenção da mídia, passa a sofrer assédio de meus concorrentes  ?

Pois é, com a promulgação da Lei Pelé, acabaram com a senzala que os clubes se acostumaram a manter ao longo de décadas, mas pelo lado dos clubes, esse detalhe citado acima, tinha procedimento.

Portanto, desestimulados, os clubes passaram a investir menos nas categorias de base, causando prejuízo técnico para o futebol brasileiro.

Pior que isso, a Lei Pelé abriu brecha para que aproveitadores invadissem o futebol de uma forma avassaladora.
Intermediários, atravessadores ou simplesmente agenciadores, tais elementos passaram a se colocar como representantes dos jogadores perante os clubes.

Se antes era normal que o pai do jogador tomasse a dianteira nas negociações financeiras entre clube e atleta, agora estava aberto o portal para que “profissionais” da negociação, contratassem jogadores, como “empresários”, a lhes representar.

De certa forma, o jogador ganhou status de artista, e se tanta gente ganhava dinheiro com o empreendimento, e ele sendo o protagonista, sem o qual não há negócio, era até compreensível que fosse tratado nesses termos.

Mas claro que fugiu do controle, e percebendo as brechas jurídicas, tais “empresários” passaram a manipular os jogadores de uma forma frenética, e assim estabelecendo uma relação perniciosa tão aviltante quanto a qual eram tratados pelos clubes anteriormente.

Se antes eram praticamente escravizados pelos clubes, agora, na mão desses “agentes”, passaram a ser tratados como “prostitutos da bola”, a levar dinheiro para os seus cafetões.

Forçando barras inacreditáveis por pura ganância, usam e abusam da carreira de seus “contratados”, fazendo-os se indispor com clubes, torcedores, jornalistas etc etc.

Se a cada transação de transferência, os valores são altíssimos, e as comissões gordas, que interesse tem um agente em que seu contratado permaneça por muito tempo num clube só ?

Portanto, sob sua estratégia, os jogadores estão sempre sujeitos a mudanças bruscas, nem sempre saudáveis, aliás quase nunca, para o seu próprio bem, pensando na performance técnica, e muito menos para o interesse dos clubes que defendem.

Como é sabido da maioria que acompanha o futebol, por se tratar de um esporte coletivo, mesmo sendo um excelente jogador, tecnicamente falando, ele depende de alguns fatores alheios à sua vontade, para ter performance de alto nível.

O entrosamento com seus companheiros, mesmo que sejam tecnicamente inferiores, é imprescindível para o seu futebol fluir a contento. O condicionamento físico é igualmente muito importante, e se muda de clube como troca de cueca, esse desempenho físico decai muito.

Por exemplo, se joga num clube do nordeste do Brasil e é contratado para jogar numa equipe da Ucrânia, vai demorar meses para adaptar-se à temperatura, quiçá a adaptação social, com seus diversos aspectos ( alimentação; hábitos; língua, distância da família etc  etc)  

Isso tudo que assinalei acima, fora a mudança de mentalidade específica da profissão, com sistemas de jogo diferentes (refiro-me à tática & estratégia); metodologia de treinamento, visão dos técnicos etc.

Aí nessa demora, o seu futebol que era vistoso aqui, decai por um ou outro motivo, ou mesmo pela somatória de tudo o que arrolei acima, e o valor de seus direitos administrativos, desaba junto.

Para reconquistar o espaço e tempo perdidos, vai ter que submeter-se a jogar em clubes menores de ligas inferiores, ou voltar ao Brasil em condições mais modestas de quando partiu, e isso se tiver tido a sorte de ser amigo de seu agente, pois a tendência é ele romper o contrato, rescindindo-o, e ir trabalhar para outros jogadores que estão numa situação melhor que a sua.

Ou seja, o cafetão percebe que a prostituta já não é assediada pelos clientes, e vai à cata de uma menina mais nova, e pronto.

Outro fator típico desse novo tipo de relação, é a complicação que causam na hora de renovar contratos com os clubes, pois querem aumentos absurdos, e essa estratégia de achaque é mera ferramenta para forçar saída em busca de uma transferência milionária.

Aliás, empresário adora plantar notícias na mídia, e usa tal artifício para pressionar os clubes a lhes dar o máximo.

Sempre tem “vários” clubes grandes interessados em seus contratados, seguindo o protocolo de suas normas não muito éticas.

Pior ainda é forçar situações em pleno rigor de contrato, conforme a circunstância do momento. Se seu contratado faz um gol decisivo numa competição, isso já é motivo para convocar uma reunião, e pressionar dirigentes a “rever “o contrato, mesmo que ainda faltem anos para ele expirar, pois contratos são passíveis de rescisões, ora bolas, para que servem as brechas jurídicas, não é verdade ?

Portanto, urge uma reforma na legislação trabalhista que rege as normas do futebol profissional, pois não se pode andar para trás querendo a volta da famigerada Lei do Passe, e os jogadores sendo tratados como escravos no tronco.

Contudo, a Lei do Pelé abriu a caixa de Pandora do "cafetanismo" (com o perdão pelo neologismo), e desse jeito, não há clube que consiga montar um time para disputar nem campeonato estadual, pois se futebol depende de treinamento e sobretudo entrosamento, está impossível manter um time intacto por mais de três meses, e tecnicamente falando, para um time atingir o seu apogeu técnico, demanda muito mais que isso.

O neoliberalismo que assolou o futebol no Pós-Lei Pelé, está matando o seu negócio, e não é à toa que o Brasil tenha sido esmagado pela Alemanha na última Copa do Mundo.

Não foi um “apagão” dos jogadores, ou da comissão técnica simplesmente, como alguns dirigentes tapuias vociferaram, mas reflexo da absoluta falta de estrutura e nesse aspecto, a Lei Pelé tem uma imensa culpa nesse processo, justamente por ter dado esse poder absurdo para usurpadores travestidos de “empresários”, e enfraquecendo os clubes.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Reclamar por Reclamar.

Reclamar por reclamar, texto de Luiz Domingues.

Tem gente que tem visão amarga da vida, por natureza.

Sua percepção da existência, é permeada pelo pior viés, como se fosse normal esperar sempre pelo mais desastroso desfecho de tudo.

Fico abismado de ver como se reclama das questões básicas de cidadania, mas ao mesmo tempo, não reconhecem nenhum esforço feito para buscar soluções, mesmo para problemas cruciais, que elas mesmo, vivem reclamando.

Numa cidade de trânsito caótico como São Paulo, há décadas as pessoas se habituaram a reclamar com veemência dessa dificuldade histórica, e a cada dia, pior.

A máxima da física, que diz : “Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço”, parece que não entra na cabeça das pessoas que paradoxalmente reclamam tanto do trânsito.

Se ninguém colabora, e nesses termos, todos querem usar carros particulares, não parece óbvio que não haverá espaço na via pública para todos circularem ?

A justificativa está na ponta da língua dos reclamões : “o transporte público não presta, por isso não o uso, forçando-me a locomover-me de carro”

Claro que não sou cego, e concordo que não temos transporte público num patamar de qualidade que gostaríamos e mereceríamos.

Tem muito o que melhorar, eu concordo.

O contraponto disso, é que esforços estão sendo feitos nas grandes cidades e no caso, cito São Paulo por ser minha cidade, e onde transito e conheço bem.

Recentemente, a prefeitura passou a adotar medidas radicais para tentar desafogar o trânsito.

Claro que algumas ações foram polêmicas e algumas, por certos aspectos técnicos, atabalhoadas.

Mas a intenção é ótima, e eu só vejo reclamação vindo da parte de quem reclama o tempo todo que o trânsito é “insuportável”.

O que desejam então ?

Se o poder público não faz nada, reclamam; se faz alguma coisa, reclamam também ?

Qual seria a solução “mágica” para tornar o trânsito agradável, na opinião dos “reclamões” de plantão ?

Lembro-me que na metade dos anos setenta, a prefeitura de São Paulo instituiu a zona azul, para tornar o espaço público mais democrático, visto que a frota estava altíssima já naqueles padrões da época, e os espaços para estacionar, ficando escassos.

A revolta foi enorme na ocasião, pois era uma medida extremamente antipática, mas diante da crescente falta de espaços para estacionar, foi inevitável.

Duas décadas depois, a prefeitura trouxe o conceito do rodízio de veículos. Isso já estava acontecendo na Cidade do México, com alívio no tráfego daquela megalópole bastante parecida com São Paulo, portanto, deveria funcionar aqui.

Claro que o “mundo caiu”, com uma saraivada de críticas ao poder público, mas quase vinte anos depois, dá para conceber São Paulo com a frota de sete milhões de carros particulares; 35 mil táxis; 15 mil ônibus, e uma infinidade de frotas de empresas, carros oficiais; e milhares de carros de outras cidades, estados, e até de países vizinhos, que aqui trafegam, podendo circular livremente todos os dias ?

Agora está havendo um incentivo ao uso de bicicletas. Ótima medida incentivar a bicicleta no cotidiano, e não só como veículo de lazer dominical. Que bacana a perspectiva do cidadão ir de bicicleta ao trabalho, escola, às compras etc etc. 
Só que na selvageria do trânsito, os ciclistas correm risco de vida permanente.

A mídia comprou a briga do ciclista, e toda vez que se registra um acidente com tal usuário, a comoção é geral, e claro que é justíssima. 

A vida humana vale mais que qualquer coisa, certo ?

Uma bandeira é hasteada : precisamos de ciclovias !!

Então a prefeitura começa a delimitar espaço para ciclovias na cidade inteira. É a segurança do ciclista sendo resguardada, e o incentivo para que mais pessoas se sintam seguras, e usem a bike no cotidiano, sem medo.

Atendida a reivindicação ?

Pois não é que os reclamões caem de pau nas ciclovias ??

- “Que absurdo” !

-“Estão tirando o espaço dos carros”...

Mas vocês não reclamavam que o trânsito estava impossível, e o poder público nada fazia ?

Outro exemplo ?

-“O serviço de transporte público não presta”.

A prefeitura se esforça para criar o máximo de corredores de ônibus exclusivos, fazendo com que os ônibus fiquem menos engarrafados, que fluam, e andando mais depressa, abrem espaço para mais ônibus circularem e isso é um claro incentivo à que as pessoas deixem seus carrinhos na garagem, e usem os ônibus, mas qual é a atitude padrão do “reclamão” ?

Ficam engarrafados dentro de seus carros, olhando os ônibus passando mais rápido, e amaldiçoando o poder público que lhes tirou espaço...

Deixar seu bólido na garagem e usar o ônibus, nem pensar, mas exigir dos governantes, um “passe de mágica”, onde mais de sete milhões de veículos circulem num espaço físico que não comporta nem um terço dessa frota, é seu esporte predileto...

Para não falarem que estou puxando sardinha para o partido A ou B, cito o governo estadual, que tem outra posição política, mas que igualmente vem fazendo esforços para melhorar o trânsito na capital paulista.

No que lhe compete nessa equação : metrô; trens metropolitanos, e a minimização de caminhões na cidade, com a construção do rodoanel, a meta é igualmente incentivar o transporte público, mas quem se predispõe a só usar tais meios e deixar o carro em casa ?

O suprasumo dos últimos dias, e que me motivou a escrever esta crônica, veio do centro de São Paulo, em mais uma ação ousada da prefeitura.

Como é sabido, na cidade de Tóquio, existem marcações de travessia de pedestres, nas grandes avenidas, em formato diagonal.

A lógica dessa engenharia de trânsito, é proporcionar aos pedestres, a oportunidade de atravessar em uma única etapa, uma travessia que lhes obrigaria a realizar em duas etapas, no método tradicional.

Ganha-se tempo e estressa muito menos, portanto, aumenta-se a qualidade de vida.

Tem turista brasileiro que faz “selfie” nesses cruzamentos da capital nipônica, e acha o máximo da modernidade...que bacana !!

E não é que no primeiro dia em que tal marcação foi feita num cruzamento de avenidas do centro de São Paulo, os reclamões caíram de pau ??

Caramba, ainda é um projeto experimental, e a turma do contra já decretou que não funciona; é um horror, mais um desastre dessa administração etc etc;

Ora , ora, volto ao início da crônica : se o poder público faz uma administração morna, daquelas que não ousam, e só mantém o caos de sempre...reclamam !!

Se uma administração tenta fazer alguma coisa, ainda que abra espaço para errar em algum aspecto, mas tenta, ora bolas, reclamam...

Conclusão : temos problemas urbanísticos graves para enfrentar e resolver.

O espaço é cada vez menor, e numa progressão geométrica, cada vez tem mais gente e suas necessidades inerentes.

Todo dia, o Detran de São Paulo emplaca uma média de 800 carros novos, para entupir a via pública cada vez mais !

Você não aguenta mais os engarrafamentos, e deseja que as autoridades resolvam isso imediatamente.

Só que : não abre mão de usar seu carro o tempo todo, e em hipótese alguma sequer cogita isso; não quer que os ônibus circulem numa faixa exclusiva; não aceita a implementação de ciclovias, pois a seu ver, “te atrapalham”; faz abaixo assinado para não construir estação de Metrô no seu bairro bacana, para não atrair pessoas “diferenciadas”; não quer que se construa monotrilhos; recusa-se a usar transporte público...

O que você quer afinal ?

Pois mágica, meu amigo, não existe, sinto lhe informar...

Ah, já sei...quer...reclamar !!

Oh vida, oh azar...como diria a hiena Hardy Har Har...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Prós e Contras do Bom Velhinho.

Prós e Contras do Bom Velhinho, texto de Luiz Domingues.

Entre tantas simbologias que se espalham pelo imaginário do povo, sem dúvida que uma das mais fortes é o do Papai Noel.

Sua figura espalhafatosa, aliado ao fato de ser um bonachão, são apenas fatores superficiais, pois o que realmente encanta na sua figura são outros elementos.

O primeiro fato e sem dúvida o mais marcante, é o da sua predisposição contumaz para agradar as pessoas, distribuindo presentes e realizando sonhos.

Essa vocação para a bondade, é por si só algo extraordinário se pensado como ação utópica, em meio à uma realidade tão áspera em que vivemos, e por conta da luta pela sobrevivência, abre campo para todo tipo de adversidade.

A formação do seu mito remonta ao paganismo pré-cristão na Idade Média.

A sua mais remota raiz era o “Velho Inverno”, um ser que simbolizava o inverno enquanto personificação da natureza e que mediante invocações pagãs, realizava pequenas ações bondosas para amenizar os efeitos da estação entre os mais necessitados no duro frio europeu.

Alguns séculos se passaram até que o mito do velho inverno fundiu-se à história de um homem chamado Nicolau e que viveu na Turquia. Sua fama de ajudar pessoas carentes, inclusive custeando a resolução de suas necessidades o tornou objeto de santificação pela Igreja católica.

São Nicolau entrou para a história como um homem bondoso que presenteava as pessoas com enorme compaixão.

Chegando à idade contemporânea, São Nicolau abriu caminho para que Santa Claus, ganhasse o contorno com o qual mais nos familiarizamos na atualidade, e foi através de um desenhista alemão chamado Thomas Nast, que o estilizou como à um velho gnomo de floresta, que o personagem ganhou a aura mais fantasiosa e remetendo ao imaginário infantil das histórias da carochinha, numa publicação do final do século XIX.

Mas o toque comercial e capitalista pós Revolução Industrial veio mesmo quando a Coca-Cola contratou o publicitário Haddom Sundblom em 1931, e o bom velhinho ganhou a roupa vermelha que o tornaria famoso mundialmente, associando-o às cores do dito refrigerante e criando o mito subliminar de que sua simpática figura tem o espírito da companhia e vice-versa.

Cabem várias visões sobre esse ato de bondade desinteressada de um ser mitológico que tem como ocupação, apenas agradar as pessoas.

Evidentemente que o imaginário humano se agarrou à essa ideia como uma boia salvadora, em meio ao mar revolto da vida real.
Como uma ferramenta psicológica a lhe dar esperança de dias melhores, tem sua validade, é claro.

Pelo lado oposto, detratores do mito o acusam de ser mera ferramenta mercadológica do capitalismo selvagem.

Não deixa de ser verdade que tal artifício é usado ad nauseaum pelo mundo corporativo, comércio, indústria & afins.
Não é culpa da personagem, mas o fato é que o “bom velhinho” é usado e abusado em campanhas publicitárias extremamente apelativas, e que chegam a enojar pelo excesso de pieguice inerente.

Outro aspecto nocivo que se criou com essa manifestação folclórica, é o efeito depressivo que alavanca, para quem está em situação difícil sob qualquer aspecto.

Mais uma vez não é culpa da personagem, mas para quem está doente; encarcerado; com dificuldades financeiras ou de qualquer outra razão; se perdeu um ente querido recentemente; sem perspectivas ou qualquer outra (des)motivação de baixo astral, a figura do velhinho bonzinho e otimista e que não conseguirá resolver seus problemas imediatos, só potencializa sua baixa autoestima.

Mas claro, é nas crianças que o efeito do mito é mais forte, naturalmente.

A manipulação adulta em lhes imputar a contrapartida de ser um bom menino / menina, para que seja merecedor do sonhado presente que o velhinho vai lhe trazer no final do ano, é um ranço moralista, com implicações religiosas, não resta dúvida.

Mesmo com boa intenção em estabelecer limites e o conceito de direito e deveres para as crianças, os pais usam tal ferramenta com uma carga negativa, que a meu ver tem uma carga de chantagem, coação e indo além, sutilmente estabelece um sistema opressivo de dominação ditatorial, abominável.

Poucos dias atrás conversei com um conhecido meu que tem formação acadêmica de psicologia, e é também pedagogo e bastante envolvido com militância em ações de cidadania e sustentabilidade ecológica.

Dono de um charmoso Café no bairro do Belém, na zona leste de São Paulo, enquanto me servia um café daqueles bem caprichados, coisa de barista experiente, contou-me como faz para manter intacto o Papai Noel em tamanho natural que orna seu Café nessa época do ano, e que encanta as crianças, mas provoca a vontade quase inevitável nos adolescentes, de o vandalizarem gratuitamente.

Com metodologia e paciência zen, domou o instinto normal dessa molecada oriunda de uma escola particular e cara, que fica há dois quarteirões de seu estabelecimento. E seu Papai Noel em tamanho natural e que fala e canta em inglês, graças aos recursos eletrônicos dos quais dispõem, não corre mais riscos...

Nesse momento, percebi que a visão lúdica do Papai Noel tem sim uma função benéfica.
Meu amigo falando que a magia é fundamental para o desenvolvimento cognitivo das crianças e que sem o lúdico, não tem como construir as bases da criatividade, fez todo o sentido naquele instante, pois ativou em mim uma ligação pessoal com o conceito.

Mesmo sabendo disso ao ler artigos e ouvir gente entendida em psicologia / psicanálise e demais profissionais que estudam a psique humana, eu tinha apenas a compreensão intelectual de tal ditame.

Mas ali, em meio aos goles do café, ouvindo meu amigo explicando com bastante embasamento, e vendo o boneco cantando Jingle Bell em meio aos indefectíveis “ho ho ho”, fui além da racionalização meramente intelectual e entendi a argumentação sob outro viés.
Estabelecendo uma percepção muito pessoal, mas que ajudou-me a compreender muito melhor a argumentação, de fato, a magia do Papai Noel tem muita importância como ferramenta lúdica para os pequenos.

Se houver a possibilidade de não haver coação, manipulação, e domínio sob a égide do medo, sem barganhas e sem a ideia de que deva existir contrapartida obrigatória, acreditar na bondade como ferramenta para disseminar ideais de fraternidade entre os homens, é certamente uma forma de contribuição inestimável para melhorar este planeta.
Tal gesto pode ser a alavanca para uma nova consciência de que a fraternidade deva ser exercida nos 365 dias do ano, e não só motivada pelo chamado espírito natalino.

Tal consciência deve assumir tom de naturalidade e não estar associada à compaixão tão somente, e sobretudo, desassociada de qualquer fundamentação religiosa, filosófica ou institucional.

Ser fraterno naturalmente, de forma anônima, sem fazer disso um acontecimento que deva angariar simpatia pessoal e que reverta em popularidade, que invariavelmente é interpretada como uma oportunidade política, e entenda-se política não como a nobre ciência social, mas a política rasteira de cunho partidário e eleitoreiro.

Talvez aí esteja a verdadeira essência do Papai Noel, ou seja, o papel de nos fazer enxergar que devemos ser fraternais naturalmente, pois isso nos faz bem interiormente.

Como personagem, ele é imaginário, mas em termos sutis, o Papai Noel pode ser a metáfora dessa nova ordem fraternal onde presentear as pessoas se torne algo normal e não me refiro a presentes materiais, evidentemente.  

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Nossos Melhores Cérebros, a Serviço dos Outros...

Nossos melhores cérebros, a serviço dos outros..., um texto de Luiz Domingues.

A expressão “Brain Drain”, criada pelos americanos, reflete e explica muito de sua grandeza como potência, ou melhor, maior potência do Planeta.

O que faz com que um país, seja considerado do seleto rol do “Primeiro Mundo” ?

São muitos os indicadores, naturalmente. Os óbvios (economia & lastro; instituições fortes; poderio bélico; organização social; tecnologia; educação; setores produtivos etc), e também os mais sutis, que ficam na retaguarda de toda a sociedade, caso dos ditos “melhores cérebros”, ou trocando em miúdos, profissionais altamente gabaritados sob o ponto de vista intelectual e consequentemente, com o melhor nível de capacitação, prontos, portanto para dar o melhor de si para a cadeia produtiva pública ou privada.

Essa é uma das chaves para o sucesso de uma nação e o óbvio investimento em educação de máxima qualidade é um caminho para chegar nesse ponto.

Mas o outro lado, o “Dark Side” (não o do Pink Floyd, que mediante um prisma vira multifacetado), mas um dispositivo bastante comum e aceitável dentro dos parâmetros do megacapitalismo : Não basta formar grandes cérebros, mas cooptar os cérebros brilhantes alheios, também.

Não acho isso um demérito, que fique claro. Quem reúne as melhores condições, tem mais é que contratar os melhores profissionais.

Quando éramos crianças, escolhíamos nossos times de futebol nas aulas de educação física, mediante o sorteio de par e ímpar, e a cada escolha do adversário, escolhíamos o próximo jogador para o nosso time, baseado no critério evidente de buscarmos a melhor qualificação possível, reforçando nosso time com os melhores jogadores. 

Nesse caso, o padrão de equilíbrio, era o sorteio promovido pelo professor, evitando que um time ficasse absurdamente mais forte que o outro, fazendo com que o jogo perdesse o poder de disputa, e abrindo caminho para o estímulo ao Bullying, por outro lado.

Mas na vida comum, esse fator de equilíbrio não existe e na selva de pedra, vence o instinto de sobrevivência.

Nessa linha de raciocínio, não enxergo como antiética a postura de atrair os melhores cérebros do planeta para reforçar os quadros da pesquisa tecnológica de ponta, e com tal contingente de gênios trabalhando em equipe, não há como uma nação não impor-se no cenário mundial, com postura de liderança.

O grande dilema para os países mais debilitados é criar mecanismos para que seus melhores cérebros fiquem e trabalhem em seus respectivos países.
Falando especificamente do Brasil, é histórica a relação de descaso com a educação, ao longo da história.

É importante ter em mente que os grandes cérebros a serem trabalhados, começam na tenra infância, e não apenas na graduação final nas universidades.

A base, na cadeia educacional, começa pela pré-escola, com uma capacitação excelente no desenvolvimento cognitivo das crianças, desde o berço, mentalidade que é comum num país de alto grau de desenvolvimento, como o Japão, por exemplo.

O ensino fundamental tem que receber uma profunda reformulação pedagógica, passando pela reformulação da didática; conteúdo; estímulo à capacidade criativa e reflexiva das crianças e adolescentes etc.

Nas universidades, o estreitamento da relação entre elas, instituições de ensino, com a sociedade, tem que ser total.

De forma tímida, existe tal conexão, via associações de indústria e comércio, como Fiesp e Fierj, por exemplo, mas isso deveria ser multiplicado à décima potência.

O governo precisa dar mais ouvidos aos Think Tanks, buscando essa inteligência sociológica e logística, na condução de sua política estratégica.

Já temos ótimos exemplos de polos de tecnologia de ponta, em que gente brilhante vem trabalhando e agregando, caso de cidades como Recife e Campinas, mas num país das dimensões e potencialidades do Brasil, isso precisa se multiplicar de forma epidêmica, espalhando-se por todos os quadrantes, do Oiapoque ao Chuí, literalmente.

Formar, capacitar e estimular os melhores cérebros a ficar no país e usar sua capacidade dentro de nossa economia e não a serviço de nações estrangeiras, se faz mister.

E tudo começa e acaba na grande chave do desenvolvimento de uma nação : Educação.

O restante, vem por dedução óbvia, com indústria; comércio e agricultura de ponta; instituições fortes; economia sólida; democracia inabalável e blindada contra radicalismos atrasados, sejam de extrema direita ou esquerda; investimento maciço em cultura; ações concretas de cidadania, ecologia e sustentabilidade; forças armadas bem equipadas, com o máximo de inteligência tecnológica e motivadas para trabalhar pela nação e jamais serem usadas para manobras políticas golpistas perpetradas por radicais infiltrados em suas fileiras; reforma fiscal, política, do código criminal;  etc etc.

Essa é a cartilha que impulsionou a grandeza das nações de primeiro mundo, e antes que me chamem de ingênuo, pois é óbvio que existe também o “Dark Side”(aí sim, o lado obscuro, mesmo), com corporativismos; intervenções invasivas na autonomia dos países pobres via belicismo; reserva de mercado; sanções econômicas e pressão política de toda sorte e geralmente antiética, é fato que tudo isso foi gerado graças aos cérebros privilegiados.

Um exemplo clássico, se deu no término da Segunda Guerra Mundial, quando os melhores quadros da inteligência que servia ao nazismo, foram convidados a trabalhar para os americanos, vide Van Braun e outros tantos.

Cérebro privilegiado move o mundo para frente, portanto, o desafio é não deixar que nossos melhores saiam, para trabalhar a favor dos outros.   

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Por que se paga muito mais para ver um artista estrangeiro ?

Por que se paga muito mais para ver um artista estrangeiro ?, texto de Luiz Domingues.

Juízo de valor é um conceito subjetivo, isso é evidente.

Desde que o mundo existe, as sociedades mais primitivas trataram de precificar tudo, e assim o mundo foi sendo regido, sem perspectiva de uma mudança radical que não baseie a vida em torno de tal paradigma.

O assunto é imensamente amplo e portanto, vou direto ao ponto que quero enfatizar nesta crônica.

No caso específico do Brasil, o estigma de ter sido uma ex-colônia de um país europeu, causou um prejuízo emocional, que na psiquê de nações com história geopolítica igual à nossa, não necessariamente ocorreu também.

Refiro-me à completa baixa autoestima que norteou a alma brasuca, e que por séculos, tem nos aprisionado no paradigma da inferioridade.

Esse complexo terrível que o brasileiro médio tem em relação às outras nações do planeta, incluso países semelhantes, ou em condições socioeconômicas ainda piores do que as nossas, resulta numa subserviência patética e patológica, que gera um sem número de situações vexatórias.

O brasileiro passa muito além do comportamento de simpatia para com estrangeiros, exagerando na dose em demasia, e fazendo com que o tal “calor humano” seja na verdade um ato de absoluto entreguismo, em muitos aspectos.

O cronista/dramaturgo e crítico esportivo, Nelson Rodrigues, cunhou a famosa expressão “Síndrome de Vira-Lata” para designar esse desvio de conduta, alimentada pelo patológico complexo de inferioridade arraigado em nosso povo.

Indo ainda mais direto ao ponto, pois tal tema gera muitos desdobramentos, quero observar uma questão específica com a qual estou acostumado, pois é do meu métier como músico : o show business.

O valor de um cachet é naturalmente proporcional à fama que cada artista consegue adquirir, isso não se discute.

É uma questão óbvia e que demanda a conquista da sua popularidade, mediante sua exposição midiática e é natural que ganhe cada vez mais, conforme cresce seu portfólio, em todos os sentidos.

Mas aí o brasileiro entra com sua famosa síndrome, e distorções ocorrem a todo momento.

O critério para precificar ingressos de shows internacionais, em relação aos espetáculos de artistas nacionais, é de uma discrepância assustadora.

Por que ?

As desculpas são muitas e quase nenhuma é convincente o suficiente.

Vejo pessoas falando que o valor exorbitante se justifica pelo fato do artista estrangeiro não vir com regularidade ao nosso país.

Isso era um argumento relativamente válido até trinta anos atrás, pois faz tempo, o Brasil entrou na rota internacional das turnês dos grandes artistas.

E pelo contrário, nos últimos anos, pelo fato do Brasil ter sido um dos raros países do mundo a não entrar em recessão profunda pela turbulência da crise mundial de 2008, nosso país virou um porto seguro para muitos artistas que estreitaram o espaço entre suas visitas.

Muitos se aproveitaram dessa oportunidade e incluíram mais cidades brasileiras nas suas tours, saindo da obviedade de fazer shows apenas em São Paulo e Rio de Janeiro.

Pelo contrário, tornou-se comum artistas internacionais fazerem shows até em cidades interioranas, o que é ótimo, é claro.

Artistas de médio e até pequeno porte, afinaram seu faro e o Brasil virou um país apto a receber shows para todos os gostos, com bastante profusão.

Outra desculpa comum, é a de que a cada vinda do artista, é melhor não perder a oportunidade de vê-lo ao vivo, pois ele pode demorar a voltar, e falecer, não havendo outra chance.

Ora, ao que me consta, artistas brasileiros também estão sujeitos à morte física, e se em tese, deixo de assistir um show deles, também abro a possibilidade de não haver outra chance na prática, caso ele “parta desta para a melhor”...

E convenhamos : tem artista estrangeiro que tem vindo com tanta frequência ao Brasil, que praticamente já fala português com certa desenvoltura...

Indo além, são inúmeros os casos de artistas internacionais que até tem residência temporária ou fixa no país.

Apesar dessa frequência cada vez maior, velhos hábitos brasucas não mudam.

Um exemplo disso é a famosa “Síndrome de Vira Lata”, típica e de certa forma, crônica (espero que não !!)...

O artista estrangeiro, independente de sua qualidade, e aqui não cabe esse julgamento técnico, embora em muitos casos isso deva ser levado em consideração, só por ser estrangeiro nem precisa cobrar demais, pois o próprio brasileiro fará questão de lhe pagar um cachet astronômico.

Está impregnado na nossa alma, que o sujeito é “superior” a nós, só por ser estrangeiro e se for anglo-saxão então, o encantamento é ainda maior. Basta falar inglês e já entra em campo ganhando o jogo de 10 x 0, ou 7 x 1 , que é um placar na moda...

Em detrimento disso, para convencer o público a pagar ingresso até dez vezes mais barato do que pagariam aos “gringos”, para ver um artista brasuca, é uma luta quase inglória e quem for do meio e estiver lendo esta crônica, certamente haverá de concordar comigo.

Resumo : Para quem achava que o fato do Brasil ter entrado há muito tempo na rota do circuito de shows do planeta, isso seria uma porta aberta para o fomento da cultura e de seus artistas locais, houve um ledo engano.

De fato, a infraestrutura para fazer shows melhorou muito, com equipamento de som e luz compatíveis com o padrão de primeiro mundo; existem muitas casas de espetáculos com essa infra e logística; estádios e arenas surgindo principalmente no pós-Copa, em condições tão boas ou até melhores que estádios americanos e europeus; temos tecnologia etc etc.

Contudo, a patologia brasuca não foi curada...esqueceram de contratar um mutirão de psicólogos, psicanalistas e terapeutas holísticos para promover essa cura da alma mater tupiniquim...

E nesses termos, enquanto não mudarmos essa mentalidade de inferioridade atroz que nos corrói, seremos por muito tempo um povo que sempre estenderá tapetes vermelhos aos estrangeiros, não por sermos calorosos e bons anfitriões, mas por acharmos que eles são “superiores” e merecem por isso, sempre serem tratados com o exagero e a vergonhosa subserviência.