terça-feira, 5 de agosto de 2014

Repórter Esso, Testemunha Ocular da História.

Repórter Esso, Testemunha Ocular da História, texto de Luiz Domingues.

Nos primórdios da história do Rádio, o tratamento com o qual o jornalismo era exercido, não tinha um formato específico e adequado à esse novo veículo.

Portanto, no início, o noticiário radiofônico era uma mera leitura de notícias publicadas nos jornais tradicionais, como uma espécie de mural enfadonho e muitas vezes não levando em conta que certas particularidades da notícia lida dessa forma, causava alguma confusão ao ouvinte.

Demorou um tempo para que os radialistas notassem que era preciso inventar um formato radiofônico específico para tal veículo.

Foi com esse propósito que em 1935, surgiu nos Estados Unidos, o “Reporter Esso”, um noticiário criado especialmente para o Rádio e patrocinado por uma companhia petrolífera (Standart Oil Company), daí esse nome personalizado.

O lado obscuro dessa iniciativa, era que tinha um objetivo claro em sua linha editorial, sua prerrogativa, mas obviamente questionável enquanto jornalismo livre e ético, pois acintosamente noticiava os fatos conforme o ponto de vista americano, realçando suas virtudes, omitindo os defeitos e enxergando o mundo pelo seus interesses, de forma parcial.

Dessa forma, não demorou e o grande foco do Reporter Esso foi a II Guerra Mundial, naturalmente.

Acompanhando o plano expansionista da política de boa vizinhança do governo Roosevelt, o Repórter Esso criou franquias (foram quinze ao longo do mundo, segundo consta na sua história), e chegou ao Brasil de Getúlio Vargas.

Em 28 de agosto de 1941, estreou na Rádio Nacional do Rio de Janeiro e desde o seu início, era subordinado ao DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), com a mão de ferro de Vargas a lhe conduzir o editorial.
No início, eram programas curtos de apenas cinco minutos de duração, e na maior parte do tempo ocupados com a reprodução do programa americano e as notícias dos militares americanos no conflito.

E mesmo com Vargas voltando ao poder em pleito democrático, anos depois, a atuação do Repórter Esso continuou na sua predisposição de noticiar sob o prisma americano.

Com o passar do tempo, o noticiário estava tão sedimentado no imaginário do cidadão brasileiro, que seus slogans e jingle, faziam parte do cotidiano do país, talvez numa proporção maior do que veio a representar o Jornal Nacional da TV Globo, anos depois.

Havia até um ditado popular, que dizia que se uma notícia surgia, só era considerada verdadeira se fosse noticiada no Repórter Esso.

O programa migrou para outras estações de Rádio, e chegou à TV, onde também fez grande sucesso.

Jornalistas como Heron Domingues, Luis Jatobá, Roberto Figueiredo e Gontijo Teodoro, passaram por ele e certamente que influenciaram outros programas que surgiram depois, incluso o Jornal Nacional da TV Globo, onde aliás, o próprio Heron Domingues fez parte no seu começo.

As trombetas estridentes que anunciavam a entrada do noticiário no ar, tinham um ar solene, parecendo que sempre a notícia a ser dada era bombástica, embora raramente isso ocorresse, dentro da rotina do jornalismo.

A contribuição que o Repórter Esso deu para o radialismo foi imensa, contribuição que estendeu-se ao jornalismo televisivo, posteriormente.

Segundo consta na história do radialismo, graças ao Repórter Esso, criou-se enfim o formato adequado para o veículo, com notícias curtas, de forma muito objetiva e expressas com frases ágeis, usando não só o poder da síntese, como a preocupação na escolha de palavras fortes para dar a ênfase necessária.

A última edição radiofônica ocorreu na noite de 31 de dezembro de 1968. O radialista Guilherme de Sousa falou sobre alguns decretos de ordem econômica assinados pelo presidente Costa e Silva, desdobramentos do AI-5, então recentemente promulgado e notas sobre o Reveillon.

À medida que falava, foi embargando a voz e nitidamente emocionado, não conseguiu encerrar a sua locução, chorando copiosamente e assim fazendo com que o locutor reserva entrasse às pressas na sala da técnica, e assumindo o microfone, encerrou a transmissão desejando um “feliz 1969 à todos”.

Na Televisão, o noticiário sobreviveu mais um pouco, mas também teve uma última edição no Reveillon, desta feita, na noite de 31 de dezembro de 1970, nas TV’s Record e Tupi.

Fim de uma Era no radialismo e calava-se para sempre a “Testemunha Ocular da História”.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Hinos Manchados de Sangue.

Hinos Manchados de Sangue, texto de Luiz Domingues.

Somos educados desde a tenra idade, a decorar o hino nacional e mesmo sem entender a maioria das palavras ali contidas, tendemos a não nos preocuparmos com a interpretação de seu significado, metáforas, analogias e outras figuras de linguagem implícitas em sua verborragia.

A maioria dos hinos nacionais dos países,  é antigo e isso explica muito o porquê do uso de palavras pouco usuais ao coloquial moderno, não só da nossa compreensão em português, mas valendo para todas as línguas, praticamente.

A exaltação das respectivas belezas e recursos naturais de cada país,  são costumeiras, assim como o enaltecimento de características humanas de seus povos, mas existe um dado além, que chama a atenção pela grande profusão, e se trata do caráter bélico, na maioria dos hinos nacionais ao redor do planeta.

Isso é compreensível, na medida em que por serem antigos, geralmente, trazem carga em anexo de uma mentalidade arcaica e arraigada em valores norteados por disputas territoriais que remontam à Idade Média e em alguns casos, até à Antiguidade.

Fala-se muito no conceito da vida e morte; luta, defesa da honra e da fronteira, como o mais alto valor a ser defendido.
Não é incomum ver nas letras dos hinos, citações de batalhas; guerras & revoluções;, sangue derramado; dor e sofrimento de seu povo; restrições & penúria material etc etc.

Geralmente ninguém se dá conta de que a mentalidade generalizada em tais composições, perpetua valores segregacionistas, com todo mundo defendendo com unhas e dentes seu pedacinho de chão, sua língua e cultura particular, em detrimento de uma visão mais macro do planeta, como casa de toda a humanidade, sem fronteiras como dizia o brother Lennon na sua canção, Imagine.

Em época de Copa do Mundo e Olimpíadas é que a mídia dá mais ênfase na execução dos hinos das nações participantes de tais jogos e aí, escancara-se toda essa constatação que venho fazendo.

A começar pelo hino brasileiro, onde se observa algumas colocações que corroboram tal tese. Por exemplo :
“Verás que um filho teu não foge à luta”, nem teme, quem te adora a própria morte”...

No da Itália, era natural que exaltassem as glórias do Império Romano, mas convenhamos, sob o fio afiado das espadas ou gládios, para sermos precisos :

“Com o Elmo de Scipio, cingiu sua cabeça, onde está a vitória, lhe estenda a coma, que escrava de Roma, Deus a criou...estamos prontos para a morte, a Itália chamou...estamos prontos para a morte”...   
No de Portugal, é natural que se exaltasse a coragem dos descobridores, via tradição marítima, mas tem truculência, também :

“Ás armas, às armas, sobre a terra e sobre o mar...contra os canhões, marchar, marchar”...


Não tenho dúvida que o hino da França é um dos mais belos, senão o mais belo do planeta. Mesmo não sendo francês e não tendo nenhuma identificação com tal nação, quase todo mundo se arrepia quando ouve a Marselhesa, todavia, já parou para analisar que tal hino foi criado no calor de uma revolução sangrenta e retrata na sua letra, ipsis literis, um banho de sangue, ainda que lutando por nobres ideais de liberdade ?

Nem reproduzirei trechos da letra, porque nesse caso, a letra inteira exalta os cidadãos a marchar, lutar e derramar seu sangue...

O hino inglês exalta a monarquia e isso não surpreende em nada, levando-se em conta o tradicional espírito conservador britânico. Mesmo ameno e formal, tem lá seu lado  raivoso :
“Ó senhor nosso Deus, venha dispersar seus inimigos...e fazê-los cair...confunda sua política, frustre seus truques fraudulentos”...

O México expressou no seu hino, o trauma da dizimação dos povos pré-colombianos pelos colonizadores espanhóis, pois fala em defesa do solo, que cada cidadão é um soldado em potencial e a espada dos arcanjos está ao seu lado para a eventualidade...caso parecido como hino da França, abstenho-me de reproduzir frases, pois é inteiro calcado nesses valores de belicismo.

De nosso vizinhos argentinos, o espírito libertador do jugo colonialista europeu, espírito comum em todos os países latinoamericanos , nos traz a frase emblemática : “Coroados de glória vivamos, ou juramos com glória morrer”...

A Argélia mostra também seu lado de exaltação da força em se defender : “Juramos, pelo raio que destrói, pelos rios de generoso sangue derramado...somos soldados em revolta, pela verdade”...

A Grécia traz seu passado da antiguidade tal como a Itália que cita Roma, mas ao invés de exaltar a sua cultura privilegiada de outrora, via filosofia e artes, fala do belicismo : “Reconheço-te pelo gume do teu terrível gládio”...

Enfim, para não tornar esta matéria gigantesca, foco por aqui, mas acredite amigo leitor, os hinos nacionais, salvo honrosas exceções, ainda trazem como teor de suas exaltações, o espírito bélico em seu bojo, numa visão nada amistosa da convivência entre os povos e considerando que na verdade, a casa onde moramos, o planeta Terra, pertence a todos e a divisão com arame farpado, de pequenos terrenos, é mera invenção sociopolítica e ultrapassada.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Steve Jobs, Internet, Compartilhar...

       Steve Jobs, Internet, Compartilhar...texto de Luiz Domingues.

Em meio à discussão acalorada sobre o marco civil da internet no Congresso Nacional, acho que vale a pena trazer à tona algumas considerações sobre o uso da rede livre de computadores.

Para início de conversa, não é lenda urbana como alguns afirmam, que o conceito da Internet livre tem uma raiz muito forte no movimento Hippie, dos anos sessenta.

Muitos de seus idealizadores, foram Hippies de fato, e portanto bastante entusiasmados com conceitos de fraternidade, que eram típicos daquela filosofia de vida proposta por seus seguidores.

Dentro desses parâmetros, um desses entusiastas das ideias fraternais propostas pelos hippies, era um jovem chamado Steve Jobs, que também era apaixonado por tecnologia.

No final da década de sessenta, dois fenômenos aconteciam no estado da Califórnia : o movimento Hippie e o agrupamento de indústrias de tecnologia no Vale de Santa Clara, que ganhou o apelido de "Vale do Silício".

Jobs transitava com entusiasmo entre os dois mundos e não é exagero dizer que muito de suas futuras realizações, foram profundamente influenciadas pelo fato de ter sido um hippie.

Ouvindo Bob Dylan o dia inteiro, ideias borbulhavam em sua cabeça.

Foi à Índia, numa típica incursão espiritualista que todo hippie potencialmente sonhava realizar, e travou contato com conceitos do Zen Budismo. A simplicidade e a bondade, como conceitos a serem adotados por toda a vida, lhe fizeram bem.

Claro que teve seu envolvimento com as drogas alucinógenas, mas a experiência do "mind expansion" parecia não ser o melhor caminho para se atingir uma nova consciência, e se criar daí, uma sociedade realmente fraternal.

Abrir a cabeça e enxergar além, era apenas um passo e pela indução das drogas, o estrago inerente causado como efeito colateral, não era nada saudável (e de fato, foi fator preponderante para o declínio do movimento, infelizmente).

Haviam pontos de divergência, é bem verdade. Hippies mais puristas, enxergavam os computadores como ferramentas de opressão da sociedade totalitária e consumista que abominavam. Mas é cabível considerar que no final dos anos sessenta e início dos setenta, a internet era restrita ao metier das universidades e serviço secreto governamental, portanto nem um pouco popular, e dessa forma, antipática e assustadora a serviço de forças realmente opressoras da parte de instituições governamentais.

Abro um parênteses para recomendar um filme produzido em 1970, chamado "Collosus, The Forbiden Project" (leia resenha sobre tal filme, em meu Blog 1 :http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/11/colossus-forbin-project-por-luiz.html), que retrata bem a maneira como os computadores eram vistos pelas pessoas naquela ocasião.  

Jobs conheceu outro hippie e gênio da tecnologia, chamado Steve Wosniak, e dessa parceria resultaria a Apple, empresa por ambos fundada e que entraria no mercado para transformar o mundo.

Ainda em 1976, criou seu primeiro protótipo de um computador para uso doméstico.

Até a metade dos anos setenta, a imagem que as pessoas tinham de computadores, era a de máquinas monstruosamente grandes, e circunscritas a salões enormes e cheios de técnicos de jalecos brancos e pranchetas à mão, fazendo anotações indecifráveis.

A ideia de ter um aparelho em casa como um eletrodoméstico, parecia apenas devaneio de filmes do Sci-Fi ou do desenho animado futurista, "Os Jetsons", onde aliás, certas coisas que eram fantasiosas na época em que o estúdio Hanna-Barbera criou tais personagens, já são corriqueiras e de certa forma até ultrapassadas na sociedade...

Em 1977, a dupla Jobs/Wozniak lançou o Apple II, o primeiro computador caseiro que apresentava imagens em cores.

Já em 1980, a empresa dos "freak brothers" Jobs & Wosniak, tinha um patrimônio de 2 bilhões de dólares, que era muito dinheiro para aquela época (e para a maioria dos pobres mortais, dos quais me incluo, continua sendo...).

Não parando de criar e ousar, vieram mais produtos e mudanças significativas que consolidaram a empresa nos anos oitenta. A ideia do "mouse", por exemplo, que Jobs assumidamente disse ter concebido após conhecer as empresas de eletrônicos do Japão e o inerente conceito oriental de miniaturização. A nanotecnologia precisava ser dominada e incorporada ao produto.

Um paradigma era o mote com o qual trabalhava : "Invenção e Inovação = execução". Essa era a diferença que transformava a ideia em realidade.

E além de pequeno e usual, o produto tinha que ser simples no seu manuseio para o consumidor leigo, tirando todo o ranço de que só "cientistas" usavam computadores.

Sofrendo pressões terríveis, Jobs acabou deixando a empresa que fundara e criou a NeXT. Anos depois, a NeXT foi comprada pela Apple e Jobs voltou à empresa que fundara, agora sendo o seu CEO.

A empresa teve novo boom de popularidade com sua volta, pois Jobs era uma estrela do mundo corporativo, muito além do conceito do bilionário bem sucedido, mas principalmente pela imagem zen que trazia, contrastando com o executivo padrão, obcecado por dinheiro e nada sensível às reivindicações socioambientais.

Pelo contrário, por ter a imagem de um Hippie "descolado", Jobs criou um conceito para a empresa, de que ela era também engajada em tais ideais e que tudo girava em torno de conceitos de fraternidade, bondade e compartilhamento.

Claro que não é bem isso, mas a imagem criada de uma empresa Hippie Chic, certamente amenizou a sua imagem e em comparação com outras mega empresas, é muito "menos odiada" por militantes socioambientais, ecomilitantes e anarquistas em geral, do que a Coca-Cola, Ford, Disney, McDonald's, os Bancos e todo o pessoal de Wall Street, sem dúvida.

Em relação à Rede Mundial de Computadores, Jobs tinha em mente o conceito de "Empacotar a Internet", para distribui-la em cada lar.

A ideia da internet ser livre, com o compartilhamento total de informações, era o sonho hippie anti-Establishment se concretizando.

De quem é o legado da civilização construída ao longo de séculos ? Não é da humanidade ? Que droga é essa de ter que pagar para obter uma informação ?

Pois é, o lado hippie de Jobs e Wosniak queria a internet livre, com cada cidadão tendo o seu equipamento livremente em casa para acessar à vontade.

Claro, o lado materialista era presente também. A internet tinha de ser livre, mas para acessá-la, você precisava ir á loja da Apple e comprar seu microcomputador. E depois os acessórios; depois os programas; depois contratar a empresa provedora da banda larga etc etc...

Enfim, Hippie até a página dois do manual capitalista, mas convenhamos, melhor isso do que o modelo que as corporações desejavam/desejam, com a internet sendo fatiada para eles a explorarem como as empresas de TV a cabo fazem quando vendem seus "pacotes", fatiando as opções para fazer com que o consumidor pague o máximo para ter direito a todos os canais, quando moralmente falando, a taxa mínima deveria dar o mesmo direito.

Isso sem contar o famigerado "Pay-Per-View", que considero um mecanismo de achaque amoral. Se você já paga por um serviço, com que direito o seu fornecedor estabelece fragmentá-lo para criar patamares de cobranças adicionais para só assim disponibilizá-los ?

Com esse precedente abominável, o que falta para cobrar o "pay-per-view advanced" ?

Seria algo como : "não basta pagar a TV a Cabo para ver um jogo de futebol ao vivo, mas na verdade, você precisa comprar o Pay-per-view. Contudo, no "advanced", o consumidor teria que pagar uma terceira taxa, para liberar o sinal do segundo tempo da partida"...

É mais ou menos o que as corporações querem fazer da Internet e espero que nossos parlamentares não cedam às pressões, mas falando realisticamente, com o dinheiro que está em jogo, alguém tem esperança que os "representantes do povo", pensem no povo, enfim ?

Bem, Steve Jobs e Steve Wosniak ficaram conhecidos pela alcunha de Lennon & McCartney da informática. Há quem discorde e ache exagerado, mas numa primeira leitura, acho que tem uma similaridade, sim, e essa atribuída escala de valores, faz sentido.

No tocante ao conceito de compartilhamento de informações, cultura & afins, a internet nasceu fechada e secreta, mas graças aos hippies nerds que se infiltraram nas universidades, o conceito Hippie de compartilhamento espalhou-se.

O que temos hoje em dia, é algo próximo do que os Hippies dos anos sessenta sonharam para o futuro da humanidade. Não é o ideal que queriam, mas hoje a temos com concessões ao capitalismo selvagem de Wall Street e seus seguidores.

Cabe à nós, usuários, pressionarmos os políticos a domarem a sua sanha e das corporações, para não haver um retrocesso total e a internet se tornar um império todo fatiado e inacessível para nós todos.

Deixo a dica de um bom documentário que assisti, para entender um pouco melhor a vida e obra de Steve Jobs, chamado : "Steve Jobs, um Hippie Bilionário" :

https://www.youtube.com/watch?v=03jV3sebUrI&feature=youtube_gdata_player

Para escrever esta matéria, tive o apoio da amiga Jani Santana Morales que deu-me valiosas dicas sobre Jobs e Wosniak. Agradeço-a efusivamente por isso.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Educando o Cidadão.

     Educando o Cidadão, texto de Luiz Domingues.

Vivemos em sociedade, em meio à inúmeras demandas. As necessidades estruturais são múltiplas para que possamos viver com conforto, bem estar, segurança e sobretudo usufruindo do meio ambiente e suas reservas naturais.

Contudo, essa equação é dificílima de se fechar, na medida em que tudo, absolutamente tudo, depende do dinheiro para ser movimentado.

Pareço óbvio falando isso, mas pense bem : se tudo depende do dinheiro, é justo que cada um dê uma contribuição pessoal para que se providencie obras fundamentais, visando suprir as necessidades de interesse de todos.

Caramba, outra obviedade. Isso existe desde a antiguidade, quando ainda nas civilizações mais rudimentares, percebeu-se que sem tal esforço coletivo, nenhuma providência para o bem estar do grupo, poderia ser feita.

Concomitantemente, a tentação de se lidar com o dinheiro arrecadado pela coletividade, era o caminho aberto para o ego humano desenvolver essa patologia chamada "corrupção", e assim a humanidade foi caminhando, nessa relação pouco saudável.

Mas esta matéria não é sobre ética, apesar de ser inevitável mencionar a questão da lisura, quando se fala de erário público, tributação e governo.

O que quero enfocar hoje é a formação do cidadão, sob o ponto de vista educacional.

Evidentemente que a sociologia engloba o assunto de uma forma muito ampla, distribuindo entre várias vertentes das ciências sociais, tais estudos que nos ajudam a entender os meandros da organização social como um todo. O que é público e o que é privado, como se complementam etc etc.

Mas como formar o cidadão comum, no básico, é a questão, pois parece ineficaz considerar que tais estudos se restrinjam aos estudantes de Ciências Sociais.

Independente de quem queira seguir esse caminho acadêmico e se especializar em suas múltiplas graduações, o cidadão médio deveria saber o básico sobre o funcionamento da máquina pública, a meu ver.

E essa máquina, é gigantesca, cheia de subdivisões e por que não dizer, contradições.

Se para um estudante de sociologia, economia, ou direito, já é complexo tentar compreender as entranhas dessa máquina monstruosa (o "monstruosa" aqui, tem duplo sentido, eu sei), imagine para o cidadão comum.

Só que tem um detalhe nessa predisposição que considero fundamental : estamos no século XXI, e não tem cabimento que o cidadão que paga impostos (e tudo o que consome é tributado, fora os impostos por bens, renda e serviços), não saiba como esse dinheiro é usado, nem com funciona a máquina pública.

Já estou imaginando leitores me achando ingênuo por escrever isso, pois há séculos que o modus operandi das autoridades é o de não explicar nada, e não favorecer nenhuma ação que propicie transparência sobre o funcionamento da máquina. 

Eu sei disso. Falo sobre o que seria ideal, não sobre o que é errado desde que a humanidade começou a organizar-se.

Quando a ditadura militar apertou para valer, após a promulgação do AI-5, os militares baixaram decreto instituindo a obrigatoriedade da matéria "Educação Moral e Cívica" no ensino fundamental (ainda no final da era do curso primário e posterior curso ginasial); "OSPB" (Organização Social e Política Brasileira"), no ensino médio e "EPB" (Estudo dos Problemas Brasileiros"), no ensino superior, além de militarizar as aulas de educação física, com a "ordem unida".

No discurso, ou desculpa para falar o português claro, a ideia era ensinar as crianças e adolescentes a conhecer o funcionamento da sociedade, mas isso era uma grande mentira.

O objetivo era outro, com a exaltação do nacionalismo, incutir valores religiosos quase explícitos, sendo que o estado deveria ser laico, e o pior de tudo, desestabilizar a capacidade de reflexão, instituindo a obediência como valor máximo a ser observado.

Para corroborar com tal estratégia, os militares instituíram licenciaturas de curta duração nos cursos superiores, quebrando os cursos de História, Geografia, e assim incentivando a formação de professores muito despreparados para ministrar as aulas de Educação Moral e Cívica nas escolas, o mais rápido que podiam.

Quando a ditadura acabou, tais cursos foram suspensos, enfim.

Não sou professor, portanto não tenho elementos para opinar com profundidade sobre a pedagogia.

Todavia, tenho em mente, que o cidadão tem o direito de entender o funcionamento da sociedade, desde o ensino básico, pois é condição básica do exercício da cidadania.

Se alguém joga um papel de bala na calçada, precisa ter a consciência do dano ambiental que aquilo causa à coletividade. Por exemplo, se as pessoas tivessem a consciência de que é errado jogar lixo nas ruas, quanto economizaríamos com as enchentes que atormentam as cidades a cada temporal ?

Se não houvessem enchentes, quanto se economizaria em saúde pública, considerando que enchentes são caldos asquerosos e repletos de bactérias ?

Quanto a zoonose gastaria menos, não tendo a proliferação de insetos, ratos e baratas que tal sujeira causa ?

Esse exemplo do papel de bala, é só um item dessa equação. Quantas outras questões de civilidade não poderiam ser tratadas em sala de aula, desde a tenra infância ?

E a máquina em si, como funciona ? 

O que faz exatamente o prefeito, o governador e o presidente ? Como se arrecadam os impostos e como se distribuem entre as três instâncias ?

Qual é o papel do legislativo ? Para que serve um vereador, deputado estadual, deputado federal e senador ?

O que são as secretarias que servem o poder executivo ? Para que servem os ministérios ?

O que é o tribunal de contas ?

Quem define a saúde, agricultura, segurança ?

Quem traça os planos da educação, infraestrutura, abastecimento, energia ?

O que é o Ministério Público, o que é defensoria ?

O que são autarquias ? 

Aposto que 95 % (ou mais), das pessoas que foram ás ruas na onda de protestos de 2013, não sabem responder essas perguntas, infelizmente.

E se no bojo, eu reconheço que os protestos tinham a legitimidade democrática de demonstrar a insatisfação generalizada, tais protestos pareciam uma briga de bêbados no escuro, tamanha a confusão que denotavam, com pessoas protestando sem um critério adequado, cobrando reivindicações de autoridades que nem tratam dos itens que estavam lhe cobrando.

Pedir para o prefeito abaixar o preço das hortaliças nos supermercados ou para o presidente cuidar da segurança pública, ou mesmo o governador tomar providências sobre o mau estado das estradas federais, são exemplos clássicos de confusão que as pessoas fazem sobre a atribuição de cada instância.

E não para por aí. Cobram posturas dos parlamentares, como se fossem do executivo e vice-versa. Cobram da polícia providências que são concernentes ao judiciário etc etc.

Portanto, sou a favor da matéria de estudos sociais, nas escolas fundamentais e médias, mas sem aquele ranço de interesses escusos da ditadura militar com sua "Educação Moral e Cívica", mas sim criando um conteúdo onde fosse explicado aos jovens, como funciona a rés pública e como devemos ser solidários para ter o melhor convívio possível, levando o país, enfim, para o padrão de 1º mundo.

Fazê-los entender que a cidade é uma extensão de nossa residência, é fundamental. Quebrar o paradigma de que a rua não merece consideração porque "não é de ninguém", além de contribuir para transformar a cidade num lixo decadente, é um caminho permanente para a roubalheira da corrupção (sei que existem outros fatores e não é só isso que acabaria com a corrupção).

Quando cada cidadão considerar a rua como sua casa, de fato, a mentalidade generalizada vai ser a de querer manter tudo limpo, o tempo todo. Bem iluminado, com equipamento público em perfeito funcionamento e isso gera baixa criminalidade, ausência de vandalismo, solidariedade, fraternidade etc.

Utópico em primeira leitura, eu sei. Mas se em países como a Nova Zelândia, Dinamarca, Finlândia, Canadá, Alemanha, Austrália, Bélgica, França e outros, isso que descrevi é quase uma realidade, penso que o segredo é a educação e troca de paradigma.

Talvez demore para chegarmos nesse patamar, mas não acho impossível. Veja o exemplo da Coréia do Sul e o salto que deu quando passou a investir pesado na educação.

A própria revitalização de Seul, com a despoluição do rio Han, é um exemplo. Até bem pouco tempo atrás, era um rio putrefado como o Tietê, com o povo acostumado a jogar detritos nele, como se não se importassem com sua morte.

Quando o rio passou a ser encarado como um patrimônio da cidade, tudo mudou.

A transformação da sociedade começa na mudança individual do cidadão.

Mesmo porque, se eu não ligo para a minha cidade ( e por extensão, estado ou país), abro o caminho para que as autoridades também pensem igual, e com aquela montanha de dinheiro arrecadado nos cofres públicos...

E tem um dado a mais : De onde vem os políticos ? De onde saem os funcionários públicos de carreira ? De onde saem os parlamentares, e os membros do judiciário ?

Pois, são pessoas como nós, do mesmo povo...

E se a mentalidade do povo é a de não considerar o bem público, por que você acha que eles pensariam diferente, se são pessoas da mesma formação cultural, educacional e nacional ?

O que adianta cobrar seriedade e lisura, se você continua passando o semáforo vermelho, acha normal jogar lixo na rua, não economiza água, desperdiça comida, não respeita filas, destrata pessoas humildes e idosos etc etc etc ?

terça-feira, 1 de abril de 2014

Manipulação da Boa Fé Publica.



        Manipulação da Boa Fé Pública, texto de Luiz Domingues.


Não é de hoje que os espertalhões de plantão usam e abusam da boa fé das pessoas para aplicar golpes.

Desde as cavernas, esse tipo de artifício é usado pelos inescrupulosos que com esse tipo de ação, são duplamente execráveis, pois além do golpe em si, existe a agravante da humilhação alheia como alavanca para tais ações.

Com o advento da Internet, isso só multiplicou-se, na triste proporção de que a humanidade dá saltos geométricos nos avanços tecnológicos, mas permanece estagnada nos padrões morais, e muitos (pasmem), retroagem...

O uso da máquina da Internet, potencializada pela febre da interação nas redes sociais, só fez crescer esse tipo de ação criminosa.

Há uma extensa lista de E-mails falsos contendo vírus, que a polícia federal recomenda que não cliquemos e basta ter um mínimo de experiência como usuário para decorar a máxima de que não se deve abrir E-mails suspeitos.

Mas existem outros tipos de golpes, tão sujos quanto, e se não estão ligados diretamente à práticas criminosas perpetradas por bandidos, são tão perniciosas quanto.

Refiro-me à enorme quantidade de postagens falsas que comovem as pessoas e rapidamente se tornam virais, gerando milhares de compartilhamentos e comentários de apoio.

Subitamente aparece no mural da sua rede social predileta uma foto montada, dando conta que um determinado alimento muito popular, é acusado de ser cancerígeno e na postagem, constam nomes de "cientistas" de universidades famosas que concluíram tal pesquisa bla bla bla.

Não passa nem um segundo e milhares de pessoas já estão tratando de espalhar a nova, com a convicção de que estão "contribuindo" ao alertar seus amigos e parentes e isso vira uma corrente de proporção incalculável.

Só que a postagem era falsa. Muito provavelmente era uma brincadeira de algum desocupado que regozija-se com seu vandalismo virtual ou , pior ainda, é fruto de uma sabotagem industrial por parte de alguém que quer prejudicar a empresa responsável pela industrialização de tal alimento.

Já vi acontecer isso com remédios, produtos de limpeza, cosméticos, brinquedos, roupas, sapatos e diversos outros objetos.

Calúnia, difamação e sabotagem ?

Claro que sim, e pelo que sei, fica por isso mesmo, pois desconheço que as autoridades tenham localizado, indiciado e levado a julgamento, tais pessoas autoras dessas ações.

Mas é no campo político que temos mais observado esse tipo de ação escusa, abominável e digna de asco por parte de qualquer cidadão de bem.

O uso desse expediente para provocar formação de opinião, tomada de posição e possível revolta, é criminoso, no mínimo.

Nenhum partido político jamais admitirá ter participação nesse tipo de estratégia, e certamente sempre usarão laranjas se "a casa cair", mas o fato é que a rede de boatarias está solta no ar e tal prática é absolutamente nojenta, caracterizando um golpe baixo na democracia e sobretudo na boa fé da população.

Em época de campanhas políticas, o bicho come solto na internet. Todo dia as redes sociais lotam de postagens absurdas, fazendo afirmações falsas, induzindo à não reflexão mais apurada e à comoção e nesse instante, no impulso, é que fazem uso da "idiotia servil", um prática detestável, que ofende a inteligência das pessoas de bem.

Com milhares, milhões de idiotas úteis trabalhando a seu favor, cegamente, fica mais fácil formatar um conceito, um paradigma que ganha contorno de verdade absoluta.

Isso não é nenhuma novidade criada junto à moderna tecnologia. Na verdade, a tecnologia do século XXI que avança, só tratou de potencializar tal expediente.

Esse tipo de uso de informação manipulada, que comove as pessoas e as faz aderirem sem pensar, é mais antiga que a civilização, e nos anos quarenta da década passada, ganhou contornos dramáticos quando usada por um homem chamado Joseph Goebbels.

Esse cidadão foi um mestre nesse tipo de artimanha, não podemos negar sua genialidade, mas, claro que a usou com motivações muito equivocadas e deu no que deu.

Infelizmente, mesmo com o rescaldo do que esse tipo de prática causou naquela ocasião, ainda existem muitos entusiastas desse tipo de ação e tem em Goebbels, um ídolo, praticamente.

Dessa forma, não passa um dia sem que ao abrirmos E-mails, não vejamos pessoas amigas e de ótima índole, lhe "repassando" recados criados com objetivos políticos claramente sabotadores, como se fossem verdades absolutas e no afã de "ajudar", as pessoas só trabalham como idiotas úteis desses crápulas.

Como máxima do jornalismo, uma notícia só pode ser publicada mediante confirmação de uma fonte fidedigna. Jornalistas costumam checar na verdade, muitas fontes, antes de assinarem uma matéria.

Portanto, caro leitor, é bom seguir esse preceito, mesmo nós que não somos jornalistas e sendo assim, jamais repassar um E-mail com "notícias bombásticas", sem checar a fonte de tal novidade.

Principalmente nas redes sociais, onde a tentação de se sentir popular é enorme (pelo caráter instantâneo das postagens e sua repercussão), por favor, tenha muito cuidado antes de compartilhar, pois muitas vezes aquelas coisas "revoltantes" ou "comoventes", tem uma procedência manipulada e você será mais um idiota útil, por parte de pessoas que tem muito interesse em ver o circo pegar fogo.

terça-feira, 18 de março de 2014

Escolas Vocacionais, uma Experiência Incrível Jogada no Lixo.





Escolas Vocacionais, uma experiência incrível jogada no lixo
Que o Brasil está melhorando sob o ponto de vista econômico, não resta dúvida, apesar das panes de má administração pública e do câncer crônico da corrupção vergonhosa.

Mas mesmo analisando apenas os aspectos positivos do crescimento do país, sempre esbarramos em algumas questões básicas que atravancam o progresso e o deslanchar do país para o 1º mundo, enfim.

Um é a falta de investimentos pesados e concretos em infraestrutura. Por décadas, isso foi sendo empurrado para debaixo do tapete, mas como éramos conformados com a eterna situação de subdesenvolvimento, vivíamos resignados com essa situação terceiro mundista de atraso vergonhoso.

Agora que o país parece estar ganhando visibilidade, bateu a vergonha, por termos os piores aeroportos, portos, estradas, logística e tudo amarrado com o mais horripilante esquema burocrático do planeta, onde nada funciona.

O outro ponto crucial desse gargalo do Brasil é o educacional.

Com baixos investimentos na infraestrutura escolar, como pleitear um real crescimento ?

Se os professores não tem incentivo algum para exercer a sua profissão, não há idealismo que segure. E o professor geralmente é um abnegado, que enxerga a profissão com paixão, e normalmente recebe em troca, uma remuneração vergonhosa, péssimas condições de trabalho, instalações caindo aos pedaços, material sucateado e nenhuma segurança no trabalho, aliás, cada vez mais insalubre por motivos amplamente conhecidos de todos e fartamente reportado pela mídia.

Então, sempre a conversa nas rodinhas acaba com um consenso : o Brasil só vai melhorar quando houver investimento maciço na educação. Fato...

Mas não podemos deixar de enaltecer a ação de muita gente que já contribuiu decisivamente para a questão educacional no Brasil. Gilberto Freyre é uma lembrança óbvia, mas pode-se arrolar diversos nomes de pessoas de enorme valor, que a despeito da má vontade oficial, deram seu sangue para melhorar tal panorama.

Uma experiência fantástica foi feita no Brasil, nos anos sessenta, por exemplo.

Era uma linha pedagógica progressista, milhas além da educação oficial e antiquada que era praticada no país até então.

Essa pedagogia fora desenvolvida por uma professora chamada Maria Nilde Mascellani, que a colocou em prática, de forma experimental numa escola estadual na cidade de Socorro, no interior de São Paulo, em 1959.

Tal metodologia impressionou o secretário de educação estadual à época, que autorizou a extensão da experiência à outras escolas em outras cidades interioranas e na capital.

Dessa maneira, foi implementada de forma experimental em algumas escolas no estado de São Paulo, a partir de 1962.

Eram alunos do antigo curso ginasial (hoje corresponde ao "fundamental II"), de escolas estaduais de São Paulo. Uma era na capital (o famoso Oswaldo Aranha, no bairro do Brooklin, zona sul da capital paulista), e outras nas cidades interioranas de Batatais, Americana, Barretos, Rio Claro e em São Caetano do Sul, na região do ABC.

Como eram os ginásios vocacionais ?

Em primeiro lugar, acabou com o regime de separação por gênero. Meninos e meninas passaram a estudar em classes mistas, quebrando um padrão pseudomoral idiotizante, que ainda remetia ao século dezenove, e seu código de conduta vitoriano de recato massacrante.

Outro aspecto libertário, era o de não ensinar matérias tradicionais com maçante teoria pesada. Todo o conteúdo técnico que deveriam absorver era proposto como um consenso comunitário. Os alunos escolhiam os temas ligados à matemática, geografia, história, português e ciências, de uma forma livre.

Os professores não adotavam a postura sisuda de mestres inquestionáveis e severos, mas a de mestres dispostos a passar seus conhecimentos para pupilos queridos, numa troca prazerosa e não ditatorial de cima para baixo.

Há relatos de ex-alunos das escolas vocacionais dando conta da clima de amizade e admiração que fora criado entre professores e alunos. Estudavam juntos e brincavam também, participando das oficinas artísticas propostas e das práticas esportivas.

A ideia era fazer uma educação onde a capacidade de criação do aluno fosse estimulada ao máximo. Mais que fazê-los decorar fórmulas e nomes de personagens históricos só para "passar nas provas", como era (é) o método tradicional, o objetivo era estimular o aluno a ser livre, crítico e criativo.

Para tanto, todo o enfoque era nos estudos sociais e as especializações saiam desse tronco comum.

Fazia sentido, pois onde vivemos ?

Não é uma sociedade ?

Pois era a maneira mais inteligente de educar as crianças e adolescentes, fazendo-os se sentir parte desse núcleo e portanto responsáveis pela manutenção e melhoria de tal estrutura, construindo o futuro cada vez melhor.

Nessa dinâmica, estudavam psicologia, antropologia, história, geografia, sociologia, como ramos da vida em sociedade, e entendimento do homem e de seu meio.

Grupos eram organizados pelos professores, mas com total autonomia dos alunos para escolher suas pesquisas. Há relatos de saírem a campo, observando a vida no entorno da escola, nos bairros, mapeando tudo o que achassem interessante e discutindo isso na sala de aulas.

Onde vivemos ?

Não é em cidades ?

Como funcionam, como é a vida pelos bairros ? O que produzem, o que reivindicam os seus moradores ? O que pode fazer o poder público para melhorar o pequeno problema localizado no bairro ? Qual o papel do cidadão comum, nessa equação ?

Como é a gestão pública, como é usado o dinheiro dos impostos cobrados, como é a logística da "rés pública" ?

Tudo o que observavam nesses estudos de campo, era objeto de discussão na sala de aulas e daí saíam estudos por escrito, com o status de verdadeiros ensaios e não os maçantes trabalhos escolares de cópia de livros em bibliotecas, como era de praxe no sistema educacional antiquado. 

Pois é...na escola vocacional, os alunos eram estimulados a notar que a sociedade, quem constrói, somos nós. Para fazer uma Brasil pujante e tão bom quanto qualquer nação civilizada de 1º mundo, a atitude e o senso crítico individual faz a diferença.

Os alunos controlavam a cantina da escola. Eles mesmo cuidavam de sua administração e isso fazia parte de seus estudos de matemática, finanças e administração. O dinheiro arrecadado era usado para financiar os projetos de campo.

Essa era a proposta da escola vocacional, mas forças retrogadas não pensavam assim.

Quando a ditadura apertou de vez, a partir da instauração do AI-5, em dezembro de 1968, a mordaça apertou e em 1969 as escolas vocacionais foram extintas pelo governo estadual, subserviente ao regime ditatorial.

A experiência avant-garde dessa pedagogia, foi execrada. Não era surpreendente, aliás era esperado, tanto quanto os nazistas quando fecharam a escola Bauhaus, assim que tomaram o poder na Alemanha em 1933.

Gente que pensa incomoda ditadores, que tem no controle absoluto, sua maior arma de domínio.

Alguns professores foram perseguidos pela ditadura. A própria professora Maria Nilde Mascellani foi presa sob alegação de "sovietizar a juventude, usando métodos pedagógicos suspeitos".

As escolas vocacionais foram consideradas "subversivas" pela ditadura.

Há uma informação de que professores da unidade de Americana denunciaram a escola ao exército, alegando que ali formavam "comunistas".

Houve uma intervenção truculenta até, com professores sendo presos na cozinha da escola.

De nada adiantou os protestos veementes de pais de alunos querendo a normalização da escola vocacional, não só da cidade de Americana, mas de todas as outras que sucumbiram ao cassetete burro da ditadura.

Extintas portanto, em 1969, as escolas vocacionais deixaram uma lacuna na história pedagógica brasileira.

Recentemente, um ex-aluno que tornou-se profissional de audiovisuais, produziu um documentário belíssimo, resgatando essa história, inclusive com raras imagens captadas na época, ali no calor dos anos sessenta, mostrando um pouco como era estimulante ter um sistema educacional que respeitava o aluno e o estimulava a ser criativo, crítico, pensante...

O cineasta Toni Ventura lançou "Vocacional, Uma Aventura Humana", que é um documento muito sensível, mostrando o que foi essa experiência educacional belíssima.

Eis o link de um trailer no You Tube, pois infelizmente por motivos de direito autoral da produtora da peça audiovisual, sua postagem completa não foi autorizada.

http://www.youtube.com/watch?v=gO-y-kwYhfE

Mas o documentário já foi exibido em vários canais educacionais de TV a cabo, e sempre está sendo exibido em mostras por aí, basta ficar de olho...

Encerrando, devo observar que o Brasil tem jeito sim. Um dia nos libertaremos das garras das pessoas que não tem interesse que a educação seja melhorada e priorizada. Quem são eles, se aparentemente não vivemos mais massacrados por uma ditadura de gente burra e armada ?

Façamos como os professores da escola vocacional estimulavam seus alunos, e nesse caso, pensemos...

E outra coisa...quando se deu essa experiência ? Entre 1962 e 1969 ?

Já pensou estar na escola vocacional nessa época, tendo essa experiência educacional incrível e com Beatles soando no ar ? Era a década da libertação, sem dúvida...

De fato, eu morava no bairro vizinho ao Brooklin em 1967, estudava no ensino primário de uma escola estadual tradicional naquela época, mas ouvia as conversas dos adolescentes mais velhos e o sonho de todo mundo era cursar o ginasial no Oswaldo Aranha, que vivia essa experiência.

Privilegiados esses que passaram por lá, até o sonho acabar, esmagado por forças retrogadas que preferem impingir pesadelos à sociedade...

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Buzina, um Tormento a Mais.

    Buzina, um tormento a mais...texto de Luiz Domingues.


Muito se fala sobre o caos dos engarrafamentos gigantescos no trânsito e também sobre o impacto ambiental negativo que a brutal emissão de poluentes causa, inevitavelmente.

Fala-se muito também (e com toda a razão), sobre as questões que envolvem a condução dos veículos, principalmente a absurda quantidade de irresponsáveis que dirigem embriagados, fora os transgressores, que não respeitam as regras básicas do trânsito.

Hoje trago como tema, outro um transtorno pouco citado, mas tão nocivo quanto os demais, que arrolei acima : os excessos cometidos pelo uso equivocado da buzina...

Parece uma piada, se formos considerar como fato isolado, mas a realidade é outra, se levarmos em conta os milhões de neuróticos transitando por aí e fazendo o pior uso possível do instrumento.

Numa rápida constatação, é triste verificar que as pessoas em geral tem a ideia errônea de que a buzina tem a mesma função de uma campainha ou telefone. Para tais pessoas que usam a buzina com essa função, fica a advertência de que estão equivocadas, pois é evidente que a buzina não foi instalada nos automóveis, com essa finalidade.

Pior, é achar que ela tem o poder de intimidação, como se fosse uma palavra de ordem e imposição de uma pessoa sobre a outra, denotando a prepotência de quem se acha poderoso dentro de sua "arma" ambulante.

Existe também o uso pela euforia. Usam a buzina como se fosse a melhor maneira de extravasar momentos de alegrias pessoais. Geralmente associa-se o uso indiscriminado da buzina, para comemorar conquistas esportivas, notadamente de clubes de futebol, e inevitavelmente nos vem o clichê à cabeça : imagine na Copa...

Carreatas de cunho político, religioso e de motivações menos cotadas, também colaboram bastante nessa poluição sonora.

A buzina como instrumento de galanteio, é outra modalidade bastante acessada. Chamar a atenção das mulheres, usando a buzina, é prática comum.

Como instrumento de impaciência, é então uma das maneiras mais comuns de pressionar outros motoristas. O semáforo ainda está na cor amarela e o cidadão colocado atrás, já aperta seu instrumento com saúde, exigindo a arrancada de quem ainda espera o sinal verde.

No período noturno, avançando pela madrugada, a insegurança pública é a desculpa para não se respeitar os semáforos e aí, mesmo que haja perigo de colisão ou atropelamento, você é advertido com bastante veemência, pelos motoristas ao seu redor, para não parar, desrespeitando os sinais.

É o tal negócio : se para, enfrenta a fúria do motorista que acha que você o "atrapalha", mas também corre o risco da abordagem de bandidos. Contudo, muito provavelmente a multa chegará em sua casa pela infração, se houver câmera...
 
A questão da "Lei do Silêncio" é uma regra pouco respeitada. Buzinas usadas sem parcimônia, agressivamente, ou por autênticos idiotas ébrios, ecoam pelas madrugadas, pouco se importando com a perturbação do sono das pessoas e diga-se de passagem, muito pelo contrário, o objetivo é azucrinar, mesmo...

Hospitais, casas de repouso de idosos, clínicas, creches, velório...nada disso importa aos energúmenos de plantão, se resolvem apertar a buzina em seus respectivos volantes.

No texto da Lei, é clara a atribuição da buzina. Basta ler o artigo 41 do Código Brasileiro de Trânsito.

Ela é um item de segurança, que serve para advertir outro motorista ou pedestres, sobre  a iminência de um acidente, ou para anunciar uma ultrapassagem, no caso de um ambiente pouco sinalizado, caso de pequenas estradas vicinais, por exemplo. Somente isso...

E mesmo assim, o uso é recomendado com certa "suavidade", dando toques rápidos e na menor quantidade possível, muito diferente das animalescas buzinadas com o punho apertando o volante com bastante ênfase, como geralmente observamos nas ruas.

Diante de tantas irregularidades, parece que o melhor caminho é o educacional, mas receio que o trabalho só surta efeito a médio-longo prazo, se começarmos a educar as crianças com noções de cidadania, respeito e civilidade, pois quanto aos buzinadores "grandinhos', parece que não tem mais jeito...